DA VAGA DE SALA
'Nossa Terra', de Lucrecia Martel: manifesto pela verdade histórica
Logo na sua espantosa longa-metragem de estreia, 'O Pântano' (2001), Lucrecia Martel faz questão de colocar a nu no seu cinema a forma discriminatória e xenófoba com que as pessoas das comunidades indígenas são tratadas na Argentina. Aquela fabulosa e memorável sequência inicial do filme, em que a intratável Mecha (a patroa), a cambalear de tão alcoolizada, serpenteia em torno dos corpos inertes dos restantes convivas junto à piscina, até ao partir dos copos que leva ao jorrar de sangue, cabendo depois a uma das empregadas domésticas - a quem a patroa chama preconceituosamente de índias - apanhar os cacos debaixo de chuva torrencial, sem pressas, naquele mesmo espaço agora vazio onde os burgueses imediatamente antes descomprimiam de cabeças tombadas nas espreguiçadeiras, é efetivamente demonstrativa desse olhar, inclusive, a câmara desce até ao chão para enquadrá-la (à empregada) cá em baixo, num nível inferior - é uma plano breve, de apenas uns segundos, mas com tremenda força. Além da matriarca, vemos depois também entre os mais novos esse posicionamento discriminatório e preconceituoso quando se encontram com os miúdos indígenas na barragem para onde vão brincar - está incrustado. Mais tarde, em 'A Mulher sem Cabeça' (2008), outra obra de ficção, tal como 'O Pântano', Martel confere honras de abertura desta longa-metragem a miúdos de uma comunidade indígena, fazendo pairar depois ao longo do filme a dúvida se um deles foi ou não atropelado pela protagonista, promovendo a relativização de todos à sua volta sobre essa possibilidade, e assim a cineasta aponta o dedo à invisibilidade a que estes cidadãos argentinos estão submetidos na sociedade do país a que pertencem. O assassinato, em 2009, de Javier Chocobar (membro da comunidade indígena Chushagasta, na província de Tucumán) às mãos do proprietário (no papel, diga-se) e de mais dois homens - um crime real filmado e difundido no YouTube - de uma terra onde aquela comunidade de nativos tem vivido de geração em geração, bem antes da independência da Argentina, serve como gatilho para Martel fazer a sua exploração antropológica, desembocando num manifesto por uma reposição de verdade histórica - eis então 'Nossa Terra' (2025) [Nuestra Tierra].
Do universal para o particular. Da visão espacial do planeta Terra até à terra que dá nome ao filme, ao som de um cântico celestial que suplica a Deus: "Senhor, tende piedade de nós"; é assim que entramos nesta obra documental de Martel, e que entrada. Com este solene pedido de perdão universal da humanidade a ecoar, seguimos planeta adentro, avistando primeiro o verde puro e virgem da natureza, até que, progressivamente, à boleia de um drone - desta feita em missão pacífica - que leva a câmara em direção à terra, que agora já avistamos como estando dividida, fracionada, espartilhada, como um mosaico, fruto da assunção da propriedade privada, aterramos mesmo na terra em que se deu o assassinato de Chocobar e o ferimento de mais dois membros da comunidade. Passados nove anos, eis em marcha a reconstituição judicial do fatídico evento. O intento de Martel com esta entrada no filme é claro e taxativo: esta história vivida naquela província Argentina não se trata de uma realidade isolada, cingida àquele contexto, reflete sim um processo global e universal de desrespeito e discriminação das minorias, ao longo história, assente em racismo e xenofobia, e alavancado por um capitalismo despudorado. A reconstituição faz-se com os três arguidos no local, mesmo junto à capelinha contruída em memória da vítima, enquanto na colina, à distância, os Chushagasta observam.
Mesmo com a câmara de Martel a ter acesso ao tribunal e às sessões do julgamento, 'Nossa Terra' não vive desse palco-arena, nem faz dele o seu centro nevrálgico, e, ainda assim, quando nos confere imagens de lá, nunca enfatiza ou empola, tão-pouco dramatiza, o olhar que possamos ter sobre aquele confronto entre acusação e defesa, incluindo os três arguidos e as pessoas da comunidade Chushagasta. A música não é convocada e, entre os diálogos ou monólogos, o som - elemento tão caro a Martel - privilegia o ambiente em torno da sala de audiências: seja o ruído dos microfones amplificado pelas colunas, do tilintar das chávenas de cafés que são servidos, do bater das portas, ou do spray desinfetante e purificador (aqui a lembrar 'A Rapariga Santa' [2004]) - é a realidade que ali se está a dar, tão ao estilo marteliano. Ainda que se mantenha de início ao fim como pano de fundo do filme, percebemos que a intenção de Martel é outra, é maior, mais profunda - dar tempo, espaço, rostos e vozes a pessoas daquela comunidade indígena. Não, não para que os Chushagasta possam contar a versão do crime - até porque as imagens e o som do vídeo já contaram tudo -, mas sim para poderem falar finalmente um pouco deles próprios, das suas histórias de vida e dos testemunhos geracionais que as fotografias - analógicas, a preto e branco - ajudam a reconstituir. Demoradamente, mas sempre sem rancores, raiva ou ódio, e sem grandes reivindicações, lá vamos ouvindo: "a terra é de quem a trabalha", "temos de proteger a nossa terra", " não viemos de outros países, nascemos aqui, como os nossos avós, bisavós...".
Aquelas vozes e rostos tão invisíveis na sociedade argentina exalam apenas a felicidade de poderem viver. Aproveitando os drones como suporte voador para a sua câmara, Martel faz-nos viajar e sobrevoar por aquelas terras, numa dimensão quase espiritual, enquanto vamos ouvindo testemunhos que cruzam o presente e o passado daquela comunidade, ali, naquelas terras onde os Chushas [povo de cabelo farto] sempre viveram e onde deram lugar aos Chushagasta, que lá continuam a viver.
Nuestra Tierra (2025), de Lucrecia Martel
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'Nossa Terra' (2025), de Lucrecia Martel



