DA VAGA DA SEMANA
'Fogo do Vento', de Marta Mateus: paisagens de resistência, por uma câmara-pincel
O cinema e a pintura. Le Lac (2025) [O Lago], filme de Fabrice Aragno que tive oportunidade de ver no último Doclisboa - não chegou a ter (ainda) exibição comercial por cá -, foi a última grande experiência de fusão entre o cinema e a pintura que vivi em sala. Diretor de fotografia, produtor, montador e responsável pelo som nos últimos filmes de Jean-Luc Godard, Aragno cria a sua versão de Le Lac [Léman] - lago e paisagem que tanto inspiraram Gustave Courbet, pintor realista francês no século XIX, e outros mais - a partir de um barco à vela, com pinceladas de uma câmara que capta os efeitos das quatro estações sobre aquele lago, sobre o céu e sobre a paisagem natural envolvente. Assistimos a um desfilar de transformações nas cores e tonalidades, ao sabor da chuva, da tempestade, da acalmia, do sol, entre o preto, ou cinzento carregado, até ao azul, mais escuro e depois mais claro, muito ou pouco alaranjado, eis o(s) céu(s); quanto à água do lago, vemo-la também com nuances de todas essas cores, em harmonia com o céu, às quais se junta ainda um verde sumo de kiwi e lima. Apenas o som, tão proeminente ao longo de todo o filme, é capaz de forçar a destrinça entre planos fixos gerados pela câmara-pincel de Aragno, a partir daquele barco à vela, e quadros pintados por Courbet, forçando consequentemente a destrinça entre o cinema e a pintura. Em 'Fogo do Vento' (2024) - primeira longa-metragem de Marta Mateus, que finalmente chega às nossas salas, após um vasto périplo internacional - há também uma câmara-pincel a retratar paisagens de um Alentejo (Central, por Estremoz) capazes de se (con)fundirem com pinturas de Silva Porto ou de José Malhoa. Das imagens transpira uma comunidade feita de pessoas embutidas ou encastradas na paisagem natural, como uma cristalização do vínculo radical (de raiz) daquela gente àquela terra; raiz ou raízes que agarram à terra os sobreiros que se estendem e resistem pelas searas alentejanas e cujas incontáveis ramificações dos seus troncos e galhos podem também servir como extensões de árvore genealógica de uma comunidade que nela se pendura, literalmente.
Quando um braço tomba, mais parece um galho do sobreiro; quando uns longos cabelos pretos se penteiam para rabo de cavalo, mais parece o tronco do sobreiro; quando um homem procura encosto para se equilibrar num só pé, é no sobreiro que o pé de apoio e o corpo repousam; já a ramada da vinha, cujas folhas exalam pela luminosidade do sol ora um verde viçoso ora um alaranjado-avermelhado-acastanhado, ou melhor, cor de vinho, em consonância cromática com o tempo da vindima, além de proteger os bagos, serve também como refúgio para se espreitar, para quem lá está, e como um cabelo-coroa-enfeitado de diferentes tonalidades para quem vê deste lado. A vindima em modo artesanal, à tesoura, abre o filme, mas quando a câmara de Marta Mateus maximiza a profundidade de campo tomamos consciência da extensão da vinha, um tanto ou quanto desproporcional face à parca quantidade de pessoas que a vindimam. Mais à frente, já com a comunidade toda (não-atores de Estremoz) em cima dos sobreiros, fugindo ao touro preto desembestado, eis que no lusco-fusco da madrugada irrompe a luz e o som (tão presente e tão constante na paisagem: nos ruídos do vento nas folhas, ou da fauna que ciranda, das aves até às abelhas...) que fazem arregalar os olhos dos demais e que trazem a vindima maquinal, perante a imobilidade, à distância, de quem vê o tempo acelerar indiscriminadamente à sua frente.
O Alentejo de Estremoz, em 'Fogo do Vento', como o Alentejo do Alandroal ou do Redondo, em 'As Estações' (2025), de Maureen Fazendeiro - o nosso melhor filme português do ano passado -, um território comum, feito de searas e sobreiros, que funciona como uma base intemporal, em ambos os filmes, para corporizar e vestir um imaginário histórico de resistência de um povo, de uma comunidade, dos trabalhadores, com a devida sinalização, ora documental, ora gráfica ora sonora da luta do proletariado durante o Estado Novo e, também, acenando ou apontando à ameaça crescente, política e social, que a extrema-direita representa no presente e para o futuro - neste particular, o touro preto enraivecido do filme de Marta Mateus simboliza de forma mais incisiva esse perigo que corre atrás e persegue os mais vulneráveis. Na verdade, apesar de um chão (alentejano) comum de semelhanças, diria que as diferenças entre os filmes de Marta e de Maureen são bem palpáveis, justificando, no melhor sentido que possamos dar ao termo, um devido espaço de singularidade para cada uma destas duas obras. 'Fogo do Vento' parte das pessoas, daquela comunidade (ciganos, incluídos) que lá vive, sobrevive ou resiste; 'As Estações' parte das antas, dos monumentos do megalítico que lá resistem; 'Fogo do Vento' surge de uma coexistência comunitária da própria Marta Mateus, que é natural de Estremoz, com aquelas pessoas; 'As Estações' surge de escavação arqueológica de Maureen naquele território até então desconhecido para ela; 'Fogo do Vento' suscita imobilidade, que promove um último esgar de resistência de um povo, de uma comunidade, consubstanciada, também, pelos planos fixos; 'As Estações' suscita movimento e promove a circularidade da vida, do tempo, da História, consubstanciada, também, pelas panorâmicas; 'Fogo do Vento' pende mais para a abstração; 'As Estações' pende mais para a reflexão.
"Quem nos acode?"; "E aqui, quem é que acende a luz?", vamos ouvindo daqueles alentejanos pendurados em cima dos sobreiros, num registo coral e de partilha, entre lamentos, desabafos, contestação, sentimento de injustiça e de abandono, no presente periclitante em cima da árvore da vida, tal como no passado, das memórias que as fotografias de família trazem - inclusive da guerra, sempre a guerra, pelas fardas militares que delas saltam -, ou da leitura declamada dos preços das jornas num papel ou boletim, ou dos poemas quase cantados que reverberam a luta de quem trabalhava de sol a sol. É a resistência coletiva assente num sentimento de classe. "É um filme muito maluco, sempre em cima das árvores", sussurrava um senhor mais velho na sala, relativamente próximo de mim. É coragem artística, meu caro senhor, digo-lhe agora.
'Fogo do Vento' (2024), de Marta Mateus
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'Fogo do Vento' (2024), de Marta Mateus



