DA VAGA DA SEMANA

Stéphane Pires • 18 de maio de 2026

'Os Domingos', de Alauda Ruiz de Azúa: uma questão de fé


Cresci no seio de uma família católica praticante, um cenário mais do que plausível numa aldeia transmontana nas décadas de 80 e 90. Se estender o seio familiar até aos avós, maternos e paternos, tios e primos, recuando no tempo, lá conseguiria descortinar uma ou outra exceção num rebanho que todos os domingos seguia o culto religioso - a missa dominical. Esse um ou outro não crente, ainda assim, não conseguia esquivar-se a batizados, primeiras comunhões ou casamentos, de familiares, incluindo dos próprios filhos; no fundo, o contexto sociocultural proeminente na comunidade, com forte impregnação do catolicismo, enraizado nas famílias, era determinante e travava a consumação de desejadas heresias num plano mais individual(ista). Contudo, quer na família quer na comunidade em si (uma aldeia relativamente pequena), era fácil descortinar, sobretudo à medida que ia crescendo, uma ampla maioria de católicos praticantes que, na verdade, faziam da ida à missa um ritual dos domingos, procurando ver e mostrar-se, aos demais, dizer presente, conviver e sentir-se parte integrante de um todo, ou pelo menos da sua grandíssima parte. Numa fatia bem mais diminuta, quase tão residual como os não crentes, na família e na aldeia, encontravam-se os fiéis incondicionais, cuja fé em algo do domínio espiritual, que transcendia o lado terreno da celebração da missa no interior da igreja, era perfeitamente percetível nos seus olhos, nos seus trejeitos, nas suas expressões, e numa certa aura que os envolvia. Em 'Os Domingos' (2025) - coroado como melhor filme espanhol nos últimos prémios Goya -, de Alda Ruiz de Azúa  - ganhou também o Goya da realização -, diria que de certa maneira estão representadas estas três predisposições face à religião católica, no caso, numa terra basca: os crentes fervorosos ou fiéis incondicionais; os praticantes do catolicismo enquanto um ritual de domingo, em consonância com uma prática (maioritária) da comunidade e da família; os não crentes, ou ateus, que por enraizamento familiar vão marcando presença em alguns eventos de culto religioso - uma filha; um pai e uma tia (uma espécie de mãe, após o falecimento desta), respetivamente.


Ainara (Blanca Soroa), 17 anos, é a crente fervorosa que quer dar um passo em frente, respondendo a um chamamento divino. Quer entregar-se a Deus, a partir da clausura num convento de freiras, cuja madre superior a tem acompanhado ao longo do seu percurso escolar, precisamente num colégio católico, onde a rapariga vai também experimentando os ensinamentos de um orientador espiritual, um jovem padre. Já sem a mãe no início do filme, Ainara vive em casa da avó, juntamente com as duas irmãs mais novas e o pai, Inaki (Miguel Garcés), que se relaciona com a religião um pouco como lida com a vida, embrenhado num certo pragmatismo amoral que o faz seguir ao sabor do vento, das circunstâncias ou das vicissitudes, que ora vai criando ora vai colhendo. Já Maite (Patrícia Lopez Arnaiz, ela que faz parte também do elenco de 'Aquí', o mais recente filme de Tiago Guedes, em exibição esta semana em Cannes), irmã de Inaki e tia de Ainara, é uma convicta não crente, a resvalar para a intolerância religiosa, que rejeita a existência de Deus, apesar de continuar a viver momentos de culto.


Através das personagens do pai e da tia, Ruiz de Azúa amplifica os contornos da história de uma rapariga que quer ser freira, Ainara, e, a partir da relação dessa tríade com o catolicismo, o filme vai-se debruçando na questão da fé (no sentido lato de acreditar em algo) e nos consequentes modos de vida. Partindo desta premissa, o filme esforça-se para nos dar a conhecer pai e tia fora da questão concreta da vontade de Ainara em enclausurar-se no convento; o pai, a viver da megalomania, de um status que não condiz com a sua condição financeira, originando consequentes dificuldades e escolhas que o levam a endividar-se e a ter de viver com as três filhas em casa da mãe (dele); a tia, presa a uma casamento que não mais parece do que um ato de fé, onde as discussões e discordâncias alimentam o quotidiano e em apenas uma sequência na cozinha/sala open space da casa, enquanto o marido prepara os bifes, a cineasta espanhola consegue mostrar-nos o quadro por completo daquele casal-família (têm um filho). Quanto a Ainara, aquele rosto angelical de olhos iluminados, desde o arranque do filme, não deixa dúvidas de que está - foi - espiritualmente capturada, por algo da ordem do divino ou do transcendental, e assim se manterá até ao término. Ao estender a música (diegética) do coro em que Ainara canta, pelos espaços, ecoando nas cabeças, inclusive num momento de descontração em que Ainara vai com os amigos à discoteca, onde o som que ouvimos ainda são os cânticos corais da sequência anterior, como que fazendo irromper um clarão de luz no escuro da pista, algo do domínio do celestial, enquanto os corpos dançam, Ruiz de Azúa consubstancia muito essa ideia de uma linearidade que 'Os Domingos' expressa afincadamente, quer na narrativa, quer nos protagonistas - e isso é uma enorme virtude. Pai e tia, cada um em consonância com os seus sistemas de valores, também se mantêm inamovíveis: no pragmatismo amoral, na convicção intolerante, respetivamente. Ao mesmo tempo, por outro lado, Ainara não deixa de ser uma jovem mulher com desejos carnais, pronta a materializá-los, sem autocondenação - é a devida humanização da protagonista.


Ainda que 'Os Domingos' seja sobretudo um filme de argumento, a partir da deslocação para o convento as imagens ganham pois algum relevo, dotando a obra de outra espessura. Lá dentro, na clausura, os enquadramentos captam a separação dos dois mundos pelas grades - o cívil e o religioso -, quer na sala de visitas em que pai e tia falam com as freiras, quer na capela em que os dois olham, do outro lado, à distância, por meio de outras (iguais) grades metálicas para Ainara, embutida e imiscuída no meio do círculo fechado das freiras que cantam; a frugalidade é magistralmente empolada numa panorâmica ao longo da mesa em U no espaço de refeições em que a câmara passa por todas as freiras que em pratos descaracterizados de sopa comem a refeição, empunhando apenas um talher, numa das mãos, na outra, uma côdea de pão, assim fazem todas à exceção de Ainara, ainda em regime de adaptação; o isolamento é conferido pelo exíguo quarto de paredes brancas, onde só há espaço para uma cruz, e uma parca janela; na casa de banho, a câmara detém-se em dois momentos diferentes na parede por cima do lavatório para que todos constatem que não há espelho, abdica-se de artefactos que possam servir a vaidade e o cultivo do ego, e, numa dessas sequências, Ainara sai do quarto e depara-se, imediatamente, no fundo do corredor, com a figura de Jesus Cristo na parede - a primeira imagem do dia, para assimilar. Espírito de missão, entrega, mas também tranquilidade, serenidade, um sentimento de proteção, de um mundo físico de tamanho pequeno, controlado, como um casulo, uma bolha, vão exalando daquela clausura - ingredientes de um modo de vida escolhido.


Los Domingos (2025), de Alauda Ruiz de Azúa

Visionado no Cinema City Alvalade



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'Os Domingos' (2025), de Alauda Ruiz de Azúa

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