DA VAGA DE SALA - Especial IndieLisboa

Stéphane Pires • 12 de maio de 2026

Dry Leaf, de Alexandre Koberidze: pelos trilhos do sonho


Ainda sou do tempo em que os domingos da minha aldeia transmontana eram feitos de missa, pela manhã, e de futebol, à tarde, religiosamente. Não se tratava de nenhuma competição calendarizada, longe disso, a combinação era feita entre rapaziada de algumas aldeias do concelho e a coisa dava-se, a jogar em casa ou fora a bola rolava por aqueles campos pelados, com pelo menos 11 jogadores de cada lado e um árbitro improvisado no momento, vestido à civil - que melhor forma para se distinguir dos demais. Cá fora, a plateia domingueira entretinha-se de muitos modos: ora a puxar pela equipa/terra/aldeia fervorosamente junto às linhas laterais; ora a sugerir óculos ao árbitro; ora a conversar sobre a lavoura e as colheitas da época; ora de corpos encostados à carrinha-bar que abastecia a malta de cerveja e refrigerantes; ora a tentar um namorisco; ora a brincar pelo campo que envolvia o campo (de futebol). Também sou do tempo em que jogos de futebol 11 naquele campo passaram a ser coisa apenas de festa, enquadrada na celebração anual da aldeia em honra da santa. E sou do tempo, há já algum tempo, que aquele campo deixou de ser para se jogar à bola, ou para se ver jogar, transformando-se naturalmente numa zona de pasto - sobram as balizas, ainda. A partir dos campos de futebol abandonados em Trás-os-Montes incorporamo-nos harmoniosamente em Dry Leaf (2025) [Folha Seca], de Alexandre Koberidze - a fechar o IndieLisboa este domingo à noite na Culturgest -, por aqueles campos igualmente em desuso, no que respeita ao jogar da bola, numa Geórgia rural, montanhosa, despovoada. É para essa Geórgia que Koberidze nos manda após um remate de folha seca na bola - daqueles com efeito - que um homem-estátua se predispõe a fazer, ainda em Tíblissi, onde, antes de largarmos a capital, ainda vemos uma folha seca, daquelas que caem das árvores, a selar no asfalto a partida do homem-guia no carro, libertando e emprestando à viagem as suas diferentes tonalidades, as suas texturas, a sua rugosidade, a sua deambulação, tão singelamente plasmadas pela lente da câmara de um Sony Ericsson de 2009, daqueles que já não se fabricam nem comercializam.


Ao largarmos a urbe, e já estacionados no campo, num sentido lato, a intenção do cineasta georgiano em filmar a partir daquilo que é aos dias de hoje um rudimentar aparelho, ganha expressão efetiva. As imagens saturadas, a roçar a pixelização, enfatizando o castanho e o alaranjado barrento, devolvem-nos à terra, num estado primário, puro, natural. As balizas, como em Trás-os-Montes, são aquilo que resta dos campos de futebol, quando ainda resta algo. Quase como um pretexto para esta odisseia por aquela Geórgia desertificada e esquecida, cujos campos de futebol são um mais que visível sintoma, Koberidze introduz no argumento a carta que uma filha, já adulta, fotógrafa, deixa aos pais a informá-los da sua partida, e que motiva esta busca imersiva, ao invés de dramática, que Irakli (o pai) enceta - ele é o nosso homem-guia, alguém que nos lembra o homem da busca existencialista em 'O Sabor da Cereja' (1997), de Abbas Kiarostami. Diria que, ainda do grande mestre iraniano, saltamos também de forma muita orgânica de Dry Leaf até 'Através das Oliveiras' (1994) - o filme que tem um dos mais belos travellings da história do cinema, ao som do cantil, com o rapaz que se declara à rapariga amada em andamento, pelos campos. Aparentemente a viagem é feita a dois, na companhia do amigo da filha, aparentemente porque a sua presença não é corpórea, materializa-se apenas pela voz. Na verdade, outras vozes com quem Irakli se vai cruzando, por entre aldeias e campos, também não têm corpo aos nossos olhos ou então talvez sejam vultos que não conseguimos identificar sem a high definition dos dias de hoje. As imagens embaladas por ternas e suaves panorâmicas, uma constante - a captura por telemóvel não é sinónimo, e bem, de câmara móvel feita de brusquidão e turbulência, pelo contrário -, a juntar ainda à melodia que vai e volta, numa cadência que se vai repetindo, como os campos de futebol que se somam, mas que também se repetem - a adoração assumida por Hong Sang-soo tem aqui visíveis pontos de contacto -, uns campos com balizas em que a ferrugem alastra no branco dos postes, outros com balizas feitas de pau, com a madeira carcomida.


Todo este universo visual e sonoro que Koberidze vai espraiando remete-nos para um trilho quase da ordem do sonho; poderíamos muito bem sonhar este filme georgiano. A certa altura Irakli parece também estar a meio de um sonho, talvez também por isso não vejamos alguns corpos e rostos que falam; aliás, mesmo no final, a voz-off faz menção aos pensamentos que Irakli, já regressado a casa, tem enquanto adormece - com o burro, o cão, as estradas. Há um plano com uma das muitas balizas, esta praticamente embutida no bosque, com a tonalidade ferrugenta a confundir-se com a terra, e de repente, com um progressivo zoom in, entramos pela vegetação adentro e partícula a partícula dá-se a diluição ou dispersão total, até retomarmos o plano seguinte numa nascente, claramente do domínio do onírico ou da alucinação visual. E quando a água ganha espaço no filme, traz também com ela as cores frias, em contraste com a predominância de cores quentes, e eis que fazemos incursões breves ao 'Nostalgia', de Tarkovsky.


Na verdade, Koberidze não requer do espectador uma necessária e objetiva tomada de consciência, com a mimetização constante e intensiva da realidade, fugindo até a um tédio eventual que planos fixos demorados pudessem trazer. As balizas, as estacas, as linhas, os cabos povoam o filme. Há todo um enfoque imagético na ideia de raízes, de âncora, de ligação, de continuidade, como marcas e marcos identitários de um povo, de uma terra, de uma comunidade, que se vão deslaçando, quebrando, secando ou desparecendo pelos movimentos migratórios que se vão intensificando. Não deixa de ser curioso que só vemos velhos e crianças no filme, naquela Geórgia que Koberidze nos mostra, quiçá pensando, ou sonhando, nesta ideia de ligação e junção entre passado e futuro, como dois postes que se unem para fazer uma baliza, para cuidar e fazer o presente.


Dry Leaf (2025), de Alexandre Koberidze

Visionado no IndieLisboa, na Culturgest



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Dry Leaf (2025), de Alexandre Koberidze

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