DA VAGA DE SALA - Especial Festa do Cinema Italiano

Stéphane Pires • 19 de abril de 2026

Cinque secondi, de Paolo Virzi: uma pausa só e tantas outras que faltaram


À entrada para mais uma sessão da Festa do Cinema Italiano, esta sexta-feira à noite no Cinema São Jorge, não pude deixar de ouvir a conversa de um indivíduo para o seu par na fila de acesso: "é na Sala Manoel de Oliveira, mas não é um filme do Manoel de Oliveira, ainda bem, porque então seria para dormir; e eu não fiz mal a ninguém". Pois bem, nem de propósito, aquelas palavras alastraram na minha cabeça durante o visionamento de Cinque Secondi (2025) [Cinco Segundos], de Paolo Virzi, e só pensava no quão bem faria ao filme um tudo nada da cadência do cinema de Manoel de Oliveira, pausar a câmara, a imagem, e ficar um pouco mais naquela paisagem bucólica com tanto campo - que o filme de Virzi nos dá -  para assim repousarmos todos. De Paolo Virzi, recordo Notti Magiche (2018) [Noites Mágicas] - uma divertida e nostálgica reflexão sobre o cinema italiano numa noite em que Roma vive a eliminação da squadra azzurra nas meias-finais do Mundial'90, certame em que fora anfitriã; recordo La Pazza Gioia (2016) [Loucamente] - uma insana e hilariante odisseia que tão bem junta a indispensável Valeria Bruni Tedeschi, cada vez mais uma espécie de Isabelle Huppert, conciliando quantidade e qualidade nos vários filmes que protagonizam, sempre com um je ne sais quoi tão dela, e a fulgurante Micaela Ramazzotti, tal como Tedeschi, também ela já se aventurou na realização com Felicità (2023) [Felicidade]; e recordo Il Capitale Humano (2013) [Capital Humano], a sua obra maior. Três filmes respeitáveis que me levaram a querer ver Cinque Secondi.


A pausa de cinco segundos do protagonista - quiçá fatídica - no momento de socorrer a filha, que acabara de desaparecer no lago, talvez tenha contribuído para Virzi anular todas as possíveis e necessárias pausas que o filme objetivamente pedia. Pelo menos, desse modo, o realizador italiano conseguiu certamente aumentar ainda mais a carga emocional dessa pausa, no momento em que o filme decide revisitá-la, a partir do testemunho do pai, agora réu, em tribunal. Esses cinco segundos de pausa que (re)vivemos com o protagonista equivalem aos mesmos cinco segundos de uma seringa a retirar sangue para umas análises, até porque nos mais de 100 minutos do filme andamos sempre muito entretidos, sem darmos pela passagem do tempo, ora a rirmo-nos com a inusitada relação entre o pai-advogado (Valerio Mastandrea),  que decidiu virar eremita, e a jovem (Galatea Bellugi) líder de um grupo de hyppies contemporâneos, todos eles doutorados, que decidem cultivar as terras que pertenceram ao avô da rapariga; ora deslumbrados com aquele magnetismo natural de Valeria Bruni Tedeschi. Seguimos sempre em andamento, como se estivéssemos num carril do tempo que precisa de correr, acelerar, para que nos tais cento e poucos minutos de filme possa caber tudo o que é suposto, simetricamente: o florescer da relação do abatido homem com a sagaz rapariga, para que se possa reinventar um novo vínculo pai-filha; a plantação de uma nova vinha, o trato, a vindima e prova do vinho; a gravidez e depois o parto da rapariga; o julgamento do homem até ao veredito final, ufa!


Afinal, por que tem de acontecer tanta coisa? Só mesmo a morte é razão para que o tempo - e o filme - tenham direito a uma pausa, uns cinco segundos que valem por muitos mais, para a narrativa e para o filme, duplamente.


Cinque Secondi (2025), de Paolo Virzi

Visionado na Festa do Cinema Italiano, no Cinema São Jorge


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Cinque secondi (2025), de Paolo Virzi

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