DA VAGA DE SALA - Especial IndieLisboa
'Mulheres de Abril', de Raquel Freire: vozes da Margem Sul até África
A escolha de uma mulher africana para dar corpo ao cartaz de 'Mulheres de Abril' (2026), o mais recente filme de Raquel Freire, em antestreia esta sexta feira, 1 de Maio, no IndieLisboa (Culturgest), parece-me inequivocamente um selar da extensão do 25 de Abril, num todo - leia-se, no combate à ditadura fascista, ao colonialismo e à guerra, bem como na luta pela liberdade -, até aos povos que foram colonizados, até às mulheres africanas, de Cabo-Verde, da Guiné, de Moçambique ou de Angola. Consubstanciando o trabalho do filme, o cartaz sela o alargamento do espetro de Abril, com todas as suas lutas e resistências, para lá do retângulo da antiga metrópole, desaguando nas antigas colónias, pelas vozes de três mulheres: Teresa Loff Schwarz (falecida em 2025), Josefina Chantre e Ana Maria Cabral (a mulher do cartaz do filme e também mulher de Amílcar Cabral, líder histórico do PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde], mas nesta história é ela, Ana Maria, a heroína). Todas elas guerreiras pela liberdade, anticolonialistas, trilham, após a(s) independência(s), caminhos no ativismo, na diplomacia, na política e pelos direitos das mulheres. Ao juntar estas três mulheres africanas às restantes sete mulheres portuguesas que compõem uma dezena de heroínas, ou capitãs de Abril, com direito a testemunhos no filme, Raquel Freire introduz aqui a disrupção necessária perante uma tendência histórica de obliteração no que toca a colocar em uníssono, em convergência, lutas e conquistas comuns - em Portugal e nos territórios colonizados, cá e lá - face a um inimigo também ele comum: o Estado Novo. Ao levar a sua câmara ao encontro destas três mulheres em África, Raquel Freire estende a ponte de Abril para lá de Lisboa, para lá de Portugal, e esse é o mérito maior do filme.
Outro mérito de 'Mulheres de Abril' é alcançado através da figura de Julieta Rocha, uma revolucionária analfabeta, não politizada, não militante, não 'iluminada', que emerge como voz crua e pura de um povo, representando tão transversalmente as agruras de muitos que sofreram e que não ganharam nunca a notoriedade para serem ouvidos: pescadores, operários ou camponeses. Passados todos estes anos, esta mulher ganhou um lugar sentado numa cadeira enquadrada com o Tejo e a ponte 25 de Abril - qual púlpito - para se debruçar sobre tempos vividos sob um regime que acima de tudo era mau, assim o cataloga Julieta Rocha, para quem a designação de fascista, bem como o seu significado, só viria depois - os estudos não davam para mais. Sem pruridos, a mulher da Margem Sul - olha para Lisboa do lado de lá do Tejo - recorda tanto a coragem, que teve em avançar perante a ameaça, como a dor que a cicatriz no queixo ainda lhe traz à memória a coronhada que levou com a arma de um GNR que lhe partiu os dentes. Num registo coloquial, feito de uma humildade que anula os filtros, Julieta relata as suas experiências pessoais com o aborto, usando métodos oriundos da sabedoria popular (da própria mãe); um relato intimo e doloroso que retira a câmara do rosto de Julieta, dando lugar a um plano que, numa simbiose magistral entre palavra e imagem, nos remete para os pés descalços no seguimento da túnica branca que cobre o corpo da mulher, Julieta, e, por baixo dos pés, um chão cujo mosaico apresenta desenhos com cor de sangue ou de vinho e em forma de brocas perfurantes - isto enquanto vamos ouvindo Julieta discorrer os três diferentes penosos métodos autoinfligidos. Este plano é tão cinema!
O testemunho de Luísa Sarsfield Cabral (mais uma das 10 mulheres) traz também à liça uma dimensão menos explorada no caminho até ao 25 de Abril: o contributo dos católicos na luta contra o regime, especialmente contra a guerra colonial. Deste modo, para lá das mulheres anticolonialistas que lutaram pela independência de Guiné e Cabo Verde, para lá da mulher não politizada que combateu o regime fascista, o espetro de Abril é também alargado aos católicos progressistas. Numa das reconstituições espaciais - chamemos-lhe assim - que o filme leva a cabo com algumas das protagonistas, vemos Luísa Sarsfield Cabral - viria a ser presa por causa do difundido boletim anticolonial por um grupo de jovens católicos progressistas - no mesmo rio fronteiriço no Marvão onde, durante a ditadura, ajudou jovens rapazes a passarem para Espanha, para fugirem à guerra.
Além do rio no Alto Alentejo que separa Portugal de Espanha, a câmara acompanha aquelas mulheres em diferentes lugares que marcaram as suas lutas e resistências: as celas e corredores da prisão de Caxias, as escadarias e os auditórios das faculdades de Lisboa ou as ruas e praças pintadas com murais de Amílcar Cabral em Cabo Verde. São reconstituições espaciais que espoletam as memórias. Todavia, e numa certa contraposição com esse revisitar do passado, vamos vendo também estas mulheres em movimento, num presente que se faz futuro, a caminharem, a fazerem jogging, ou transportadas de carro, em travellings que estampam essa vontade de prosseguir, de continuar esse projeto contínuo que nunca se termina: a democracia. A sequência sonorizada pela canção que A Garota Não compôs para o filme é o epítome desse espírito, diria.
Margarida Tengarrinha (falecida em 2023), Maria Emília Brederode Santos (falecida em 2026), Isabel do Carmo, Helena Neves e Ruth Rodrigues completam a dezena de vozes d'As Mulheres de Abril', um filme em que Raquel Freire dá primazia aos testemunhos destas mulheres, feitos das suas experiências pessoais e até intimas, em detrimento de um formato documental rígido, guiado por datas e eventos; ou seja, a cineasta de 'Rasganço' (2001), 'Veneno Cura' (2009), ou de 'Mulheres do Meu País' (2019), parte de histórias para ir contando a História do nosso período ditatorial, cristalizando vozes de resistência e luta pela liberdade, no feminino, num exercício efetivo de preservação de memória coletiva - para que ela (a memória) nunca nos falte ou não continue a faltar.
'Mulheres de Abril' (2026), de Raquel Freire
Visionado no screener cedido pela realizadora
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'Mulheres de Abril' (2026), de Raquel Freire



