DA VAGA REALIZADOR DO MÊS
'Três Amigas', de Emmanuel Mouret: desejos e amores
Depois de 'As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos' (2020), depois de 'Diário de um Romance Passageiro' (2022) - filme que ainda virá ao NA VAGA DE ROHMER -, e após 'Três Amigas' (2024), a conclusão é inequívoca: o cinema de Emmanuel Mouret assenta na exploração do binómio desejo-amor. Em 'As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos', testemunhamos a força do desejo, indomável, que se imita, replica e multiplica, subalternizando o amor, absorvendo-o, relegando-o para uma espécie de indefinição, deriva e questionamento. Por sua vez, em 'Diário de um Romance Passageiro', o desejo germina e faz brotar o amor, paulatinamente e de modo gradual, amor esse que cresce como fruto do desejo ao invés de um fruto desejado. Já em 'Três Amigas', ouvimos duas das três protagonistas centrais, em papéis invertidos, no início e no final do filme, a exprimirem a ideia de que "o amor não é para toda a gente". Este último filme de Mouret talvez reforce a ideia de que o amor terá sempre no desejo o seu aliado e o seu inimigo maior, paradoxalmente: o desejo capaz de construir, o desejo capaz de destruir, o desejo capaz de impedir, o desejo capaz de adiar, o desejo capaz de reconstruir...o amor.
O desejo desvanecido de Joan (India Hair) por Victor (Vincent Macaigne) destruiu o amor dela por ele. "Já não estou apaixonada", diz-lhe ela, em sofrimento. Perante a irreversibilidade deste estado de Joan, o marido Victor fica sem chão terreno e encontra abrigo no céu. A falta de desejo de Joan pelo professor substituto de Victor, que consequentemente se torna vizinho, impede o ensaio de um amor que os una a eles e às duas pequenas filhas respetivas, elas que clamam por um casamento dos dois de modo a virarem irmãs; e mesmo quando Joan parece dispor-se à tentativa, eis que, uma vez e depois outra, surge alguém que lhe desperta o desejo, espoletando a sua crença num desejo construtor de amor. Já Alice (Camille Cottin) e o marido rebuscam o desejo um pelo outro quando se apercebem que ambos estão a ser desejados por outros (amantes) - o tal desejo mimético tão trabalhado em 'As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos' -, reconstruindo assim o amor entre eles. Quanto a Rebecca (Sara Forestier), o desejo (mimético, uma vez mais) que consuma no caso com o marido da amiga Alice parece adiar um amor, possível e inesperado promovido pelo acaso.
E por falar no acaso, aproveito para voltar ao tema das semelhanças e diferenças (já abordadas no escrito sobre 'As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos') entre os cinemas de Emmanuel Mouret e de Éric Rohmer, concentrando-me em quatro elementos: o acaso [par hasard]; a quase omnipresença da palavra; os protagonistas e as relações; os retratos de realidade.
O acaso em Mouret: volta a ser abundante neste filme, quer para primeiros encontros quer para reencontros. Mas, da mesma forma que em 'As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos', também em 'Três Amigas' o acaso é injetado de forma mecânica, importando o fim (o propósito) e descurando-se o meio (o contexto). Alice sonha com um número de telemóvel, no dia seguinte faz uma chamada e voilà: eis que uma voz do outro lado vira desejo e amante a breve trecho. Rebecca vai a uma entrevista de trabalho - não envia fotografia no currículo - e voilà: reencontra o homem com quem não se havia entendido num rendez-vous a partir de uma plataforma eletrónica.
O acaso em Rohmer: dá-se sempre com algumas probabilidades - por mais reduzidas que possam ser - sustentadas pela ideia de um lugar como ponto de partida. Por exemplo, e entroncando de certo modo com o episódio do encontro de Rebecca com o o homem do date falhado e do reencontro feliz, em 'Conto de Outono' (1989), Rohmer promove o encontro casual e feliz do homem e da mulher numa festa de casamento, por meio de tantos convivas presentes, em casa da amiga dessa mulher, amiga essa que à revelia engendrara um anúncio para rendez-vous nos classificados do jornal à época com intuito de encontrar um namorado ou companheiro para a amiga - a vitória do acaso sobre a premeditação. Um café habitual, um grande café, um transporte público, uma festa ou uma praia são sempre lugares com probabilidades de encontros e reencontros par hasard em Rohmer.
A quase omnipresença da palavra em Mouret: quando não há palavra, seja do narrador (voz-off) ou dos muitos diálogos, cabe à música preencher o silêncio, inevitavelmente. Personagens bavards falam pelos cotovelos, sempre em movimento, raramente se sentam, nunca se sentam só para falar. À volta de desejos e amores, os diálogos expõem semelhanças e dissonâncias entre os protagonistas face ao eixo desejo-amor, emergindo volatilidades e fragilidades nas convicções quanto ao que se diz ou ao que se finge dizer ou ao que se se pensa acreditar relativamente a esse binómio.
A quase omnipresença da palavra em Rohmer: dá-se uma verdadeira mise-en-scène das conversas, que envolve o tempo e o espaço. As cenas contemplam diálogos mais demorados, mais compassados, que alargam o espectro (filosofia, religião, literatura, por meio de desejos e amores), muitas vezes num espaço só, com pouca mobilidade. É deveras importante a forma como protagonistas se movem e se instalam no espaço, até porque as conversas traçam os perfis psicológicos e sociológicos dos envolvidos. As palavras escolhidas são muitas vezes rebuscadas, pesadas, poéticas.
Os protagonistas e as relações em Mouret: dentro daquela elegância intelectual que predomina nas suas personagens e nos espaços por onde se movem resiste um lado mais primitivo de atração, sedução, relação e consumação de desejo e prazer. Um certo pragmatismo amoral vem também ao de cima, no que toca a desejo e prazer, mas também à conveniência, praticidade e status quo.
Os protagonistas e as relações em Rohmer: nos protagonistas centrais evidencia-se o ego, a autoanálise, a reflexão, a moral, uma certa angústia existencial, o conflito interior, a indecisão, tudo isto gera dilemas constantes e condiciona as relações.
Os retratos de realidade em Mouret: parte-se de histórias de vida que nos remetem para a realidade, mas privilegia-se o olhar cinematográfico, quer pelos constantes planos-sequência que acompanham as personagens e a torrente de palavras que saem das suas bocas de um lado para o outro, quer pelos (quase) grandes planos quando o protagonista fica só e em silêncio e a câmara se aproxima gradualmente do seu rosto. O próprio reconhecimento geográfico, social ou mundano dos lugares no local (cidade) onde se filma é negligenciado: Paris em 'Diário de um Romance Passageiro' é igual a Lyon em 'Três Amigas'.
Os retratos de realidade em Rohmer: os efeitos do real são uma constante e experienciamos uma topografia sentimental nas diferentes terras por onde se fazem os filmes: seja em Paris, seja nas praias da Bretanha, seja na vila de Clermont-Ferrant. Já a câmara, com os seus enquadramentos, filma como o olho humano vê, dando primazia a planos fixos ou a suaves panorâmicas.
Trois Amies, de Emmanuel Mouret (2024)
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'Três Amigas', de Emannuel Mouret (2020)



