DA VAGA REALIZADOR DO MÊS
Archipelago, de Joanna Hogg: paisagem existencial para ver e pintar
Voltamos a passar férias de Verão com uma família britânica de classe média alta a convite de Joanna Hogg - escolha DA VAGA REALIZADOR(A) DO MÊS. Trocamos a solarenga Toscana de Unrelated (2007) pelo cinzento das ilhas Scilly (Inglaterra) de Archipelago (2010), a segunda longa-metragem da cineasta britânica. Além do sol, em Unrelated, deixámos a sempre apetecível piscina, e com ela os corpos banhados e os drinks refrescantes; lá, deixámos a folia da juventude numas férias de Verão; lá, deixámos o ócio prazeroso e o tédio que se saboreia; lá, deixámos o carro, as voltas, a noite, o transfer campo-vila, as festas de rua, a antítese entre o sossego e o rebuliço. Em Archipelago reforça-se ainda mais o primado da natureza que Unrelated já exalara; agora é a pé ou de bicicletas que se explora o território, por entre trilhos, bosques e rochas, até se desaguar no mar, com o o vento, nas folhas e ramadas, e depois as ondas a produzirem o som que dispensa a música diegética que ouvimos no carro no primeiro filme. Em Unrelated, em clara sintonia com uma paisagem de verão italiano feita de dolce far niente, aqueles veraneantes entregam-se ao relaxamento, à descontração e aos prazeres - mesmo que pelo meio tenham de lidar com inseguranças, atritos, expetativas, encantos e desencantos, pautados por não-ditos - , por sua vez, em Archipelago, é de abstração, reflexão e de uma busca de cura que se faz aquela paisagem existencial.
Ao escolher para plano de abertura do filme uma grande tela a ser pintada por uma mão sem rosto, julgo que Joanna Hogg estará a pedir-nos que nos preparemos desde logo para pintarmos também o nosso quadro/paisagem com o desenrolar do filme - de seguida, passamos para um plano geral e conseguimos ver o pintor (Christopher, um amigo da família) e toda a paisagem natural que está à sua frente e que vai até ao mar -, para tal, Hogg oferece-nos a lente da sua câmara como sendo o nosso próprio olhar, cabendo depois à nossa mente transformar-se na mão do pintor que, face à paisagem diante dos seus olhos, vai pintando a sua própria recriação. Exclusivamente em planos fixos, Hogg coloca-nos sempre a paisagem vista a partir do nosso olhar, seja ela exterior ou interior, com ou sem pessoas, tanto faz, é sempre num ângulo observacional nosso, de espectador, com a devida e salvaguardada distância, que as imagens se dão. Ou seja, os enquadramentos fazem de nós, espectadores, invariavelmente, testemunhas oculares e privilegiadas, sempre sob a nossa lente - como tal, cabe-nos a nós escolher o que e como vemos perante o espaço amplo, aberto; a câmara não nos guia forçando a mudança de plano ou movimentando-se no mesmo; o movimento, diga-se, cabe às próprias personagens e ao nosso olhar, mediante as nossas escolhas. Exemplificando, sempre que se dá a cena à mesa de jantar, dentro de casa, com a mãe Patricia (Kate Fahy), a filha Cynthia (Lydia Leonard) e o filho Edward (Tom Hiddleston, que já víramos em Unrelated), a câmara é colocada numa ponta que permite enquadrar os três rostos e ainda ver, com a profundidade de campo devida, a cozinha de porta aberta, onde amiudadas vezes surge Rose (Amy Lloyd), a empregada doméstica contratada para aquelas férias - enquanto decorrem os jantares vamo-nos desdobrando entre o que vemos à mesa e o que espreitamos na cozinha, além do que ouvimos. E como, gradualmente, rapaz e empregada vão estreitando proximidade e química, um pouco à semelhança do que vimos entre Anna (Kathryn Worth) e Oakley (o mesmo Tom Hiddleston) em Unrelated, maior relevância ganha ainda a profundidade de campo que nos leva da mesa de jantar até à cozinha.
Diga-se pois que aquela paisagem natural feita de céu cinzento com sol pálido ou escondido, de árvores vergadas pela força do vento, de horizonte largo, desabitado, rochoso, que convida à melancolia e à abstração - nada como pintar e pintar, ou ensinar a pintar, assim faz Christopher com a mãe Patricia e também com a filha Cynthia - tem depois prolongamento no interior da própria casa de férias, com a total ausência de cores vivas, com as despidas paredes a exalarem lividez e inexpressividade, seja naquele verde claro da sala de estar, que se estende na carpete, seja no branco pastel dos quartos. Quartos esses, onde, à vez, a câmara estaciona para ali ficarmos, sem pressas, com as tristes solidões de Edward, da irmã Cynthia ou da empregada Rose, nos quartos que são refúgios após mais um dia de convivência tolerada, difícil ou indesejada. Hogg é exímia a potenciar essa relação de tempo e espaço que nos permite entrar emocionalmente em cada protagonista, já assim fora em Unrelated, especialmente com Anna, mas aqui, por ser um núcleo mais restrito, é ainda mais transversal. E ainda no interior da casa temos o cantinho do telefone fixo, à janela, com horizonte vasto para poisar a vista enquanto se fala, sobretudo para mãe Patricia, dia após dia em chamadas com o ausente-presente marido/pai , de quem, tal como o marido de Anna em Unrelated, nunca chegamos a ouvir a voz. Sim, Archipelago reforça o cunho identitário de Hogg em construir diálogos e relações com não-ditos, alguns só para o espectador, outros entre os protagonistas. Há sempre coisas que ficam por dizer e que nos levam a recriar, imaginando o que poderia ser dito em determinadas cenas, especialmente entre Edward e Rose. E dessa forma reside mais um quadro para explorar e pintar, partindo dos planos em que o rapaz e a empregada falam sobre lagostas e coisas outras do quotidiano, ou quando o silêncio se apodera dos dois e do filme - e quão bem Hogg trabalha o silêncio, fá-lo sentir-se, sem medo do seu peso, toma-se consciência da sua forte e destemida presença em momentos em que dois ou mais protagonistas estão diante da câmara: atos de verdadeira coragem cinematográfica.
Entre o trazer e o levar daquela família de helicóptero, que vemos no início e no final do filme, no início e no final daquelas férias de verão, no heliporto do arquipélago, dei por mim a ser transportado até ao cinema de
Michelangelo Antonioni
- não fora em
Unrelated. Diria que por esta relação entre paisagem - aqui essencialmente natural, mas também no interior de casa, como vimos, escolhida a preceito - e personagens que
Hogg
leva a cabo, feita de simbiose, harmonia e fusão. E depois a decorrente alienação e perturbação emocional que vamos observando e decifrando nas personagens enclausuradas naquela ilha.
Archipelago (2010), de Joanna Hogg
Visionado na Mubi Portugal

Archipelago, de Joanna Hogg (2010)



