DA VAGA DE CASA

Stéphane Pires • 16 de janeiro de 2026

'Começar de Novo', de Joachim Trier: neuroses obsessivas entre aspirações e psicose


Identidade: procura e formação do 'eu'; construção e reconstrução, por meio de vicissitudes da juventude na transição para a vida adulta; deriva e questionamento existencial. É muito em torno da busca de identidade por parte de jovens adultos um tanto ou quanto urbano-depressivos na capital norueguesa que gira a denominada 'Trilogia de Oslo', concluída em 2021 com 'A Pior Pessoa do Mundo', depois de 'Oslo - 31 de Agosto', em 2011, e de 'Começar de Novo', em 2006, precisamente a longa-metragem inaugural de Joachim Trier.   Enquanto aguardamos pacientemente pela exibição em Portugal de 'Valor Sentimental' (2025), importa recuar quase 20 anos, até aos primórdios da carreira de Trier, para recuperarmos os alicerces da sua edificada obra e assim revestirmo-nos da estrutura devida para absorver, em breve, o seu mais recente filme - tem estreia prevista para final de Janeiro. 'Começar de Novo' explora o tema do processo de desenvolvimento da identidade (no transfer juventude-vida adulta) a partir de neuroses obsessivas que vão crescendo, por meio de aspirações, até desembocarem, no limite, em estado psicótico.


A cena que abre o filme é absolutamente crucial para melhor compreendermos o que virá a seguir. Os amigos Phillip (Anders Danielsen Lie)  e Erik (Espen Klouman Hoiner),  ambos com 23 anos, ambos vestidos de preto, ambos com envelopes semelhantes nas mãos que (ambos) depositam pouco depois num marco do correio (daqueles clássicos vermelhos). Os envelopes contêm os respetivos manuscritos que ambos - cada um por si, leia-se - escreveram para serem publicados e assim se tornarem, ambos, escritores, na senda da influência que o mesmo escritor (um norueguês que na história aparece em retratos a privar com Marguerite Duras em Paris) exerce sobre ambos e que ambos veneram. Num dos vários flashbacks, desta feita recuando até à escola primária, ou coisa parecida, observamos o ato indecoroso do pequeno Erik que, na tentativa de se 'livrar' do melhor amigo de Phillip para resgatar esse lugar para ele próprio, espalha a calúnia sobre o outro miúdo, levando à expulsão do mesmo da escola. O rastilho da obsessão de Erik por Phillip acendera-se ali, em tenra idade, e, voltando ao presente no filme, continua em combustão uns 10 ou 15 anos depois. A obsessão que Erik nutre por Philip é feita de complemento e não de confronto. Erik parece sentir-se parte de Philip, uma parte dele, daí a vontade férrea de o seguir, de o acompanhar, de o proteger, de o cuidar. Quando o manuscrito de Philip vira livro - e o de Erik foi rejeitado -, Erik está na plateia orgulhosamente a aplaudi-lo; quando Philip se mutila, é Erik que o ampara e o socorre; quando Philip tem alta médica-psiquiátrica, é Erik que o recolhe na clínica e o devolve aos amigos e à vida.


O que é deveras interessante é irmos decifrando esta neurose obsessiva, meio que controlada, meio que camuflada, que Erik vive em relação a Phillip enquanto este já saltou para a psicose - logo depois do lançamento do livro - e, entupido de medicamentos, procura agora encontrar-se ou reencontrar-se, por entre visões do passado que a sua mente puxa para colar ao presente. Vemos essa tentativa de reconstrução, quer mais involuntária, com os amigos aquando do regresso da clínica para casa com paragem para ver e ouvir o mar no pontão, onde um breve plano geral capta os cinco jovens espalhados no cinzento do chão que os separa do mar e onde um tímido raio de sol espreita, são os filhos de Oslo, associação que fazemos num ápice ao lermos 'Oslo' num arco que vemos na imagem; quer mais voluntária, com a ex-namorada Kari (Viktoria Winge),   com quem vai novamente para Paris, tal como antes do colapso da sua saúde mental, levando a cabo uma espécie de reconstituição da viagem anterior. E se Kari tornou-se numa obsessão visível para Philip, já a namorada de Erik vive na invisibilidade - só lhe vemos o rosto quase no final quando ela se cansa do relacionamento com Erik, até então só víramos os pés -, arredada das lides com o grupo de amigos de Erik e Philip nas noites desgarradas ao som do punk. Se Erik é uma parte de Phillip, como um corpo separado em dois, não há espaço para a inclusão da namorada, que é só dele, no meio deles.


Já a caminharmos para o final, num dos grandes planos do filme, na sala entre a meia-luz e o escuro da casa de Phillip - um pouco à semelhança da Oslo que vamos vendo -, sentados em sofás e cadeiras reclináveis pretas, respetivamente, os dois amigos encetam uma espécie de sessão psicanalítica mútua, mas muito sóbria, lacónica, antidramática, à la Joachim Trier, em que parece consumar-se ali a desintegração dos corpos e das mentes daqueles indivíduos. Um tal começar de novo: Philip, ancorado no verde-azulado ou no azul-esverdeado apaziguador dos olhos afastados um do outro no rosto sardento de Kira; Erik, a libertar-se da fusão com Philip pela escrita, livro após livro - ambos em busca de novo(s) 'eu'(s). Talvez aquela fotografia negra tirada sem tirar a tampa da lente e que veio a dar capa ao primeiro livro de Erik seja o luto às obsessões, ou então não.


Reprise, de Joachim Trier (2006)

Visionado em Mubi Portugal


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'Começar de Novo', de Joachim Trier (2006)

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