DA VAGA DE SALA & REALIZADOR DO MÊS - Especial Festa do Cinema Italiano

Stéphane Pires • 10 de abril de 2026

La Grazia, de Paolo Sorrentino: um filme para Marcelo ver - e viu


Faltavam uns minutos para o arranque oficial da Festa do Cinema Italiano'26 e consequentemente para vermos Toni Servillo a fazer de Presidente da República de Itália, no filme de abertura, e eis então que me deparo com outro presidente, no caso ex-, a subir as escadas do Cinema São Jorge, no seu habitual passo acelerado - Marcelo Rebelo de Sousa. Já lá dentro, numa esgotada Sala Manoel de Oliveira, a presença do antigo Presidente da República não deixou de ser mencionada pelo diretor artístico da Festa, aquando dos discursos iniciais, pelo que, a partir dali, e ao longo do filme que se seguiria, o ex-presidente Marcelo deverá ter pairado como uma omnipresença constante para toda a plateia que esta quinta-feira foi ver La Grazia (2025), o mais recente filme de Paolo Sorrentino - à boleia do nosso Especial Festa do Cinema Italiano em DA VAGA DE SALA, o cineasta de L'uomo in più (2001), Le conseguenze dell'amore (2004), Il Divo (2008), ou La grande beleza (2013), todos com Toni Servillo, é também escolha DA VAGA REALIZADOR DO MÊS. Quanto a Marcelo, o filme deve ter reverberado como um espelho em muitos momentos, não particularmente naquele em que o Presidente da República de Portugal (personagem ficcionada, não se trata de Marcelo Rebelo de Sousa, tal como o Presidente da República italiano no filme não é Sérgio Matarella) entra na narrativa para uma visita de Estado a Itália, caricaturado como um velho que mal se arrasta pela passadeira presidencial, numa travessia terrivelmente amplificada por um slow motion que Sorrentino introduz de modo a que o seu protagonista possa olhar penosamente para o seu homólogo e ter tempo, muito tempo, para refletir sobre o envelhecimento, isto enquanto a batida eletrónica de 5 Mins of Acid tilinta na cabeça dele e nos nossos ouvidos! Felizmente, o espelho terá reverberado para Marcelo a partir da figura do presidente De Santis (Toni Servillo): um inquilino do palácio presidencial em final de mandato e depois já como ex-, tal como Marcelo; um democrata-cristão, tal como Marcelo; um solitário no palácio, sem primeira-dama, tal como Marcelo; um catedrático jurista, tal como Marcelo; um católico cujas convicções esbarram na promulgação da lei da eutanásia, tal como Marcelo. Enquanto lei para promulgar ou não, mas também noutras derivações em torno do seu eixo, sob a forma de atos de vida e morte, a eutanásia poderia muito bem ser o espírito do filme, mas Sorrentino faz tudo para retirar gravidade a La Grazia.


Aquela imagem perto do final em que vemos o presidente De Santis, agora no lugar do engenheiro aeroespacial, a flutuar ao sabor da gravidade, ou falta dela, no interior da nave que vagueia no espaço, funciona bem como metáfora do filme. Sorrentino não deixa que a eutanásia e o seu entorno aumente a gravidade em La Grazia, prefere que flutue, apenas. As conversas do presidente sobre a legalização da morte medicamente assistida nunca viram debate, confronto, dissertação, sejam elas de teor jurídico, religioso, social ou moral, nem com a filha-assessora-jurista, nem com o amigo ministro da justiça, nem mesmo com o Papa (Sorrentino oferece a um negro de rastas a liderança da igreja católica, mas mesmo assim esta mantém-se inflexível no que toca à eutanásia, ainda que, também, sem recorrer a argumentação, rejeitando telegraficamente; apenas). Aliás, o Papa e o Presidente da República são alvos apetecíveis para Sorrentino caricaturar; numa das conversas entre ambos - não como aquelas de Toni Servillo enquanto Giulio Andreotti com o padre em Il Divo, sobre o Deus no céu e o Deus na terra -, o presidente De Santis fala das suas preocupações em tom quase trivial enquanto o Papa parece nem escutar, preferindo mirar o horizonte, à procura da luz redentora que o sol pode trazer. A gravitas de Il Divo, de Giulio Andreotti, ora com o padre, ora nos monólogos confessionais, ora silêncio da solidão, ora nas conversas de segredo de Estado, toda essa gravitas parece ter-se perdido com o tempo, na política, na religião e também no cinema de Sorrentino.


O presidente discreto, conciliador, apologista do diálogo e do compromisso - aqui o espelho já não reverbera com Marcelo, mas antes com Seguro - que foi De Santis ao longo do seu consulado valeu-lhe a alcunha de betão armado, provavelmente por não deixar que as emoções ou tentações condicionem a tomada de decisão. Agora, a poucos meses de sair de cena, De Santis vê-se confrontado pela crescente necessidade de voltar a ser o homem, para lá do presidente e jurista. As memórias da falecida mulher são uma constante. Sabemos que vêm à tona assim que a imagem é açambarcada por uma paisagem natural onde paira a neblina e dá-se o caminhar de alguém, sempre ao ritmo da composição sonora de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. A humanização do ser de betão armado lembra um pouco Le conseguenze dell'amore, em que a certa altura Servillo (quem mais...) enceta o seu processo de humanização, ainda que bem mais disruptivo e fantástico, também a partir do amor por uma mulher. No fundo, as memórias e o amor que (ainda) sente pela mulher Aurora despertam-no para o humanismo perdido, em detrimento de um formalismo rígido, legal e mecânico, que nos é um tanto ou quanto vendido da sua figura, incluindo pelos efeitos que a câmara produz no espaço, nas grandes salas do palácio presidencial, enfatizando e hiperbolizando a solidão, a frieza, a austeridade, seja por meio de enquadramentos que potenciam a profundidade de campo, seja por travellings e planos-sequência que nos fazem percorrer as distâncias; porém, o frequente resvalar para o tom ligeiro e humorístico que o filme colhe dele (de Servillo), muito através da sua linguagem corporal, incluindo olhares, reações, maneirismos, faz com que esse resgate ou busca de um humanismo perdido no tempo careça efetivamente de solidez.


E mais do que a promulgação da lei da eutanásia ou o indulto que possa conceder a quem matou por "legítima defesa preventiva", palavras do jurista-presidente, o caminho de humanização é bem mais conseguido naquela sequência perto do fim, já em casa e longe do palácio, em que De Santis devolve a chamada nunca atendida da diretora da Vogue deambulando por meio dos vestidos da mulher, Aurora, pelo toque nos tecidos, pelo cheiro que recolhe deles, pelo verde que lhe traz memórias. E para aligeirar, caricaturar e satirizar um pouco mais, nada como soltar uma bomba política a uma revista de moda, beleza e lifestyle.


La Grazia (2025), de Paolo Sorrentino

Visionado na Festa do Cinema Italiano, no Cinema São Jorge


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La Grazia (2025), de Paolo Sorrentino

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