DA VAGA DE CASA

Stéphane Pires • 8 de julho de 2025

'Céu em Chamas', de Christian Petzold: e um rosto que incendeia


Há uns dias atrás voltei a mergulhar no rosto-cinema de Liv Ullmann  pela câmara de Ingmar Bergman.   Desta feita, o reencontro deu-se no nunca antes visto 'Face a Face' (1976). Não há, e creio que nunca haverá, relação de rosto e câmara que se aproxime daquela que Ullmann e Bergman construíram e nos concederam em tantas obras do cineasta sueco. Em 'Face a Face', os caminhos tortuosos da mente de Bergman, transportados para a personagem de Ullmann, fazem expelir gotas de suor pelos poros do rosto dela, condensando-se particularmente no buço, com a boca semiaberta e os olhos cristalinos de tom azul turquesa a meia haste. Esta nostalgia permanente face ao rosto de Ullmann pela câmara de Bergman faz-me desembocar numa busca constante por novas vias de rosto-cinema na contemporaneidade. O rosto de Itsaso Arana pela câmara de Jonás Trueba (especialmente em La Reconquista  [2016]; em La virgen de agosto [2019] e em Volveréis [2024]) e o rosto de Federica Rosellini  pela câmara de Daniele Luchetti (em Confidenza [2024])  representam as novas vias de relações entre rosto feminino e câmara que mais me têm impactado, às quais se juntou, temporalmente depois, o rosto de Paula Beer pela câmara de Christian Petzold, precisamente em 'Céu em Chamas' (2023). Com rosto e corpo que parecem condensar e conjugar a elegância fina e geométrica de Margit Carstensen com a sensualidade doce de Hanna Schygulla - compatriotas germânicas e musas de Rainer Fassbinder  -, Paula Beer é a chama, a labareda, a faísca que ilumina, alumia e aquece todo o filme.


O ecrã vermelho que antecede verdadeiramente o plano inaugural do filme dá-nos desde logo sinalética cromática de perigo, de fogo. E esse primeiro plano é um travelling lateral veloz pelas árvores a perder de vista, antecipando o vento que puxará pelas chamas dos incêndios, floresta adentro, naquele Verão de junho na costa alemã. A rapidez desse travelling é concedida pelo carro que Felix (Langston Uibel) conduz, enquanto Leon (Thomas Schubert), ao lado, olha pela janela da viatura - aqui temos logo espelhadas as disposições naturais e contrastantes dos dois amigos, que rumam à casa de praia-campo dos pais de Felix, ou seja, um vive da ação e do movimento, o outro embrenha-se na introspeção e na imobilidade -, viatura essa que avaria poucos instantes a seguir e emana fumo do motor, como mais um prenúncio do fogo que virá, ou que já aí está, pois logo de seguida ouvimos o som de um helicóptero a sobrevoar. Diz-se que os opostos se atraem, tendo a concordar muito, também na amizade. Sem termos história anterior ao presente dos dois rapazes, nem mostrada, nem contada, nem com referências, Petzold obriga-nos a interpretar os sinais que as posturas, os olhares, as reações e os comportamentos de ambos nos conferem para, assim, criarmos o molde das suas personalidades e aferir o complemento que cada um procura no outro. Arrisco: Felix, o rapaz instintivo, desenrascado e com boa figura, parece nutrir um sentimento protetor face ao taciturno, stressado e frágil Leon, que, por sua vez, parece necessitar da vitalidade e da energia do amigo para sair do seu enfado. Leon é um jovem escritor, às voltas com o manuscrito do seu segundo livro; Felix gosta de fotografia e, aparentemente para estar em sintonia com o amigo, diz-lhe que vai trabalhar no seu portfólio: acabará depois por ter uma ideia para fotografar no mar, impulsionada por Devid (Enno Trebs), o nadador-salvador da praia que nas noites daquele verão quente atiça o fogo de Nadja (Paula Beer) - a intrusa na casa, que é uma conhecida da mãe de Felix, e que os dois amigos não sabiam que vivia na casa de praia-campo -, cujos gemidos no quarto ao lado tiram o sono a Leon - "as paredes são finas", diz ela depois a Leon, pela janela, no alto do seu vestido cor de fogo, de olhar penetrante e de um sorriso que ilumina, na manhã em que se conhecem e ele se queixa do ruído.


Mas, apesar da diversão com Nadja, a praia de Devid é outra, e, tal como Felix, vive de instinto e ação, pelo que não é de estranhar o beijo que ele lhe rouba (a Felix) no jantar a quatro, no exterior verde que cerca a casa, sob o zumbido constante de insetos. Porém, nessa sequência à mesa, enquanto vamos todos ouvindo a longa história que Devid conta, começa a emergir a intensidade do rosto de Nadja e a forma como a câmara o procura: sempre que Nadja faz o movimento subtil, mas sem disfarçar, do rosto em direção ao macambúzio Leon - este prefere defender-se e olhar com desdém para o falador Devid -, a câmara salta para o rosto dela, que se mantém por largos momentos com aquele sorriso rasgado, expresso por muitos dentes, e acompanhado por um olhar acutilante, como quem o chama e quer trazer para ali, para perto de si, mesmo sem conseguir obter correspondência. A conversa de Devid, o beijo de Devid a Felix, o desdém arrogante de Leon perante a conversa de Devid, tudo isso pouco interessa: a relação entre o rosto de Nadja e a câmara de Petzold é o cerne daquele jantar-conversa.


Mesmo sem a correspondência de Leon, Nadja dá-lhe a mão para verem do teto da casa o céu vermelho alaranjado ao longe na noite, uma espécie de aurora antecipada que cobre o céu noturno, uma chama cromática de fogo que arde e que não se vê; um fogo que também arde em Nadja e em Leon, mas só ela deixa que se veja. Numa alternância entre fogosidade e ternura, o rosto de Nadja incorpora-se a preceito no fundo, no décor, na paisagem - agora junto ao mar, pelo campo que o circunda. O desengonçado Leon mal consegue salvar a goulash que ela transporta na bicicleta e que cai ao chão, esquecendo-se de que Nadja estava por terra após a queda. Com a brisa do mar a esvoaçar-lhe o vestido, desnudando-lhe parte das pernas, singelas e brancas, Nadja levanta-se, sorri e larga brilho nos olhos, dá-lhe o rosto de perto, enquanto lhe limpa vestígios de goulash nas faces (dele). Nadja não possui as características de femme fatale, que impulsiona todos os desejos e mais alguns, o seu poder de atração emana da expressividade do seu rosto e de como ela consegue fazer dele um íman, de diferentes formas; quando, no quarto, ela convida Leon para um passeio noturno no mar brilhante, naquele momento, o seu rosto consegue exponenciar uma estonteante sensualidade, sem precisar de fazer uso - ela e a câmara - do resto do corpo.


E quando as cinzas se assemelham a farrapos de neve a caírem no jardim da casa, pinta-se um contraste de Verão-Inverno, de quente-frio, que ilustra os contrastes nas relações que fomos observando: entre Nadja e Leon; entre Felix e Leon; entre o par Nadja-Leon e o par Felix-Devid.


Roter Himmel, de Christian Petzold (2023)

Visionado em Filmin Portugal



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'Céu em Chamas', de Christian Petzold (2023)

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