DA VAGA REALIZADOR DO MÊS

Stéphane Pires • 4 de junho de 2025

'O Mercador das Quatro Estações', de Rainer Fassbinder: preconceito, desgraça e utilitarismo


Década de 70, Alemanha do pós-guerra dividida por dois blocos, em dois Estados, para Oriente em RDA (República Democrática Alemã), para Ocidente em RFA (República Federal Alemã); nesta última, pelo cinema de Rainer Werner Fassbinder  - escolha DA VAGA REALIZADOR DO MÊS (de Junho) -,   constatamos de forma singular, sui generis, o legado de cicatrizes que o Império do mal e a guerra inscreveram numa nova sociedade a reconstruir-se por entre destroços. Preconceito, desconfiança, coscuvilhice, utilitarismo, niilismo, pragmatismo, amoralidade, decadência, desgraça, fatalidade, são deveras dominantes. E sem recorrer a eloquentes retóricas, intelectualização, ou diálogos reflexivos, para teorizar, discorrer, desenvolver, desvendar e aprofundar estes modus vivendi e modus operandi, o cinema de Fassbinder  prefere plasmá-los, vertê-los diretamente nas personagens - nos seus rostos, nas suas figuras, nos seus trejeitos -, em intensa e constante interligação com a câmara, numa força visual, expressiva, alcançada pelos magistrais enquadramentos: de onde a câmara se coloca para filmar e como os protagonistas são dispostos no décor - Fassbinder  é inigualável neste ponto. Em 'O Mercador das Quatro Estações' (1971), conseguimos observar todos esses modus vivendi e operandi mencionados, mas diria que o preconceito, a desgraça e o utilitarismo são os mais salientes.


O preconceito é encabeçado pela (velha) mãe (Gusti Greissl)  de Hans (Hans Hirschmuller), e este, por sua vez,  personifica a desgraça, como fruto e consequência da educação e trato de que foi alvo por parte da progenitora. A primeira sequência do filme, ainda antes de surgirem os créditos iniciais, ilustra na perfeição essa relação mãe-filho: ele regressa a casa, vindo da Legião Estrangeira (corpo militar composto por voluntários/mercenários), e a mãe recusa-se a cumprimentá-lo, vira-lhe costas, e, acompanhados por um travelling, vemos o filho a andar atrás da mãe para lhe contar que mudou para melhor; ela para, volta-se para ele e aniquila-o com um "quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita". Logo de seguida, já noutra sequência, surgem então os créditos em cima da cabeça de Hans, que roda enquanto apregoa: "Peras frescas, comprem, comprem". Uma cabeça que parece um alvo para abater, especialmente quando a câmara faz uma panorâmica em volta dos prédios que cercam o pátio onde Hans está com uma carroça (de madeira) carregada de peras; sensação essa que sai ainda mais reforçada segundos depois num plongée que exponencia visualmente a pequenez de Hans - já de si de baixa estatura -, afundado no avental, ainda por cima com Irmgard (Irm Hermann), a esposa, a surgir também nesse plano com a sua estatura imponente, esguia, realçada mais ainda pela longa perna à mostra, de saia arregaçada, enquanto ajusta a liga da meia. Irmgard  representa o utilitarismo; e se saltarmos destes instantes iniciais do filme precisamente para o derradeiro plano, vemos a consagração absoluta dessa premissa e a consumação da tríade: preconceito, desgraça, utilitarismo, por esta ordem. Saídos (literalmente) do funeral de Hans, a viúva, a filha (criança ainda) e o amigo-empregado de Hans estão fechados na carrinha, estacionada, vestidos de luto, quando Irmgard diz ao homem que percebendo ele do negócio, precisando ela dele, dando-se ele bem com a filha Renate, o melhor é juntarem-se, o melhor para todos - a maximização da felicidade para o maior número de pessoas, simplificando o utilitarismo de John Stuart Mill.


Estas três sequências referidas, que ligam o início e o término do filme, obviamente são respaldadas ao longo de 'O Mercador das Quatro Estações', colando a mãe de Hans, Hans e Irmgard a esses três estados: preconceito, desgraça e utilitarismo. Em flashbacks, vemos o desprezo da mãe por Hans, por não ter estudado, por querer ser mecânico, por ser despedido da polícia, pela sua existência, no fundo. No presente, a mãe continua a vulgarizar e a menosprezar o filho perante a família, apoiada por uma das duas filhas (irmãs de Hans) e pelo genro Kurt, duas figuras que se movimentam como apêndices da matriarca, captamos isso quase sem ouvirmos nada deles, e pouco ou nada eles dizem, a força expressiva das imagens é mais do que suficiente - quando Hans tem um ataque e cai naquele chão vermelho, tal como as cortinas, da casa da mãe (a levar-me para o vermelho de 'Lágrimas e Suspiros', de Ingmar Bergman, precisamente no ano a seguir, em 1972), em contre-plongée observamos a indiferença e até o desprezo no rosto de Kurt perante o cunhado tombado. Apenas a irmã Anne  (a bela Hanna Schygulla) se opõe ao establishment familiar, confrontando a mãe, defendendo o irmão - e nesses encontros familiares o seu posicionamento físico destoa dos restantes, seja assumindo a cabeceira na mesa de almoço, seja afastada espacialmente dos outros na cena que leva ao desfalecimento de Hans, mantendo depois a lucidez, ao contrário dos restantes, para chamar a ambulância.


Quanto à desgraça de Hans, ela é gradual, vai em crescendo, ao longo da sua vida e concomitantemente atravessa todo o filme, apenas com uma breve exceção em que após a doença contrata um empregado para vender as frutas e ele vira patrão, inclusive, nas entrevistas que Hans faz para recrutar o homem de confiança - isto apesar de o próprio Fassbinder, dando corpo muito fugazmente a uma personagem que almoça com Hans dizer que "ninguém é de confiança" -, os plongées, outrora sobre ele, são agora sobre os candidatos ao posto de trabalho, afundados na poltrona da sala. Sol de pouca dura, a desgraça de Hans é constantemente acicatada pelas memórias: da mãe, da mulher amada cujo pai dela não quis que casasse com um loser como ele - outra vez o preconceito -, do despedimento na polícia, da violência sofrida na Legião Estrangeira, tudo isso parece minar o sentido da vida; cabe ao álcool transportá-lo para a cabeceira da mesa, não a de casa, ou da  casa da mãe/família, mas a mesa do bar onde se sentam em torno dele a ouvi-lo outros bebedores; do rosto liberta-se o suor que os grandes planos evidenciam; da boca saem as lamúrias de bêbado; das mãos solta-se a violência que impõe em casa à mulher.


De olhar felino e sorriso sagaz, Irmgard parece perita em encontrar soluções para tocar a vida para a frente, ainda que com o empecilho da desgraça contínua do marido. Prostitui-se quando o marido está acamado no hospital; é empreendedora no negócio das frutas; trama o homem que lhe pode custar a felicidade que ela ainda busca para todos, em casa, com Hans; convoca a mulher amada de Hans para o funeral dele. Esbelta, Fassbinder não se coíbe de mostrá-la nua, sexualmente dominadora naquele encontro de prostituição fortuito, perante a cruz pendurada na parede do quarto, e também na cama com Hans, onde a sua elegância contrasta com a figura rechonchuda do marido. Num dos muitos grandes planos de rosto, quando Hans bebe para a morte, as lágrimas escorrem e cristalizam apenas numa das faces (do rosto dela), talvez refletindo aqui a meia tristeza e o meio alívio pelo final da desgraça.


Händler der vier Jahreszeiten, de Rainer Fassbinder (1971)

Visionado em Filmin Portugal



Adquira o  Livro NA VAGA DE ROHMER - Escritos sobre (65) filmes | O ANO ZERO

À venda em Portugal

À venda no Brasil

'O Mercador das Quatro Estações', de Rainer Fassbinder (1971)

Compartilhar

'O Último Mergulho'
Por Stéphane Pires 23 de janeiro de 2026
'O Último Mergulho', de João César Monteiro: quando a noite traz a luz
'O Bolo do Presidente'
Por Stéphane Pires 20 de janeiro de 2026
'O Bolo do Presidente', de Hasan Hadi: odisseia social e moral
'Começar de Novo'
Por Stéphane Pires 16 de janeiro de 2026
'Começar de Novo', de Joachim Trier: neuroses obsessivas entre aspirações e psicose
Mais Posts