DA VAGA DE SALA

Stéphane Pires • 20 de janeiro de 2026

'O Bolo do Presidente', de Hasan Hadi: odisseia social e moral


Teria sido certamente um filme impactante em 1990 - ano em que espoletou a Guerra do Golfo, que opôs o Iraque de Saddam Hussein às forças internacionais comandadas pelos Estados Unidos da América de Bush (o pai); a História encarregar-se-ia uma década mais tarde de promover a sequela do conflito, ainda com Saddam, mas já com outro Bush (o filho), com o desfecho que todos conhecemos. Sim, é até 1990 que o jovem iraquiano Hasan Hadi nos faz recuar no tempo para nos servir 'O Bolo do Presidente' (2025), a sua primeira longa-metragem. E sim, é de um realizador iraquiano - e não iraniano - que estamos a falar. Voltemos ao início: teria sido um filme impactante em 1990, um filme que um outro Hasan Hadi daquele tempo poderia ter feito, como Abbas Kiarostami ia fazendo no Irão - provavelmente só poderia ser feito na clandestinidade ou fora daquele Iraque. Não que o filme aponte baterias ao regime de Saddam, com denúncia, exposição ou condenação da barbárie a que aquela ditadura férrea submeteu o seu povo; não, esse não é o quadro. Hasan Hadi  limita-se a recuperar um retrato social, político e moral daquele Iraque dos anos 90, e isso seria por certo mais do que suficiente para que o regime de Saddam censurasse a obra e condenasse o criador. Neste retrato que Hadi (re)constrói, os americanos são justa e evidentemente o inimigo, fruto da propaganda do regime, mas também e muito pelos aviões militares que sobrevoam os céus tenebrosamente, deixando em suspenso a possibilidade de lá de cima vir fogo e morte, novamente. Contudo, quer no que concerne ao regime de Saddam, quer no que respeita à intervenção militar dos americanos, Hadi remete para nós, espectadores, a reflexão e politização. O filme é político mas não é politizado; Hadi dá-nos os ingredientes da época, mas quem faz o bolo somos nós.


Pois bem, enquanto vamos vendo o filme e fazendo o nosso bolo político, a pequena Lamia (Banneen Ahmad Nayyef), de 9 anos de idade, foi incumbida pela sorte (madrasta), e a mando do professor, de confecionar e de trazer para a sala de aula o bolo do presidente. Não se trata propriamente do bolo com que o próprio Saddam Hussein vai celebrar o seu aniversário, mas sim de um dos milhões de bolos (de aniversário) do presidente que serão confecionados e degustados por todo o Iraque, num verdadeiro rito comemorativo do culto de personalidade do grande líder, apesar da guerra, apesar das mortes, apesar dos aviões americanos no ar, apesar das sanções económicas impostas, apesar da inflação, apesar da miséria, apesar da fome. Subtilmente, na mesma sala de aula em que Lamia viu o seu nome ser tirado da caixa pelo professor para a hercúlea tarefa, vemos a pequena órfã - vive com a avó, velha e cansada - aperceber-se de que a maçã que trouxera na mala, que por sinal serviria de almoço, desapareceu; a narrativa não dá relevo a esse facto, mas Hadi  está a pedir-nos para recuarmos um pouco na fita e vermos que a mala foi guardada por um funcionário da escola - a maçã certamente foi confiscada pela fome do homem. "Sou apenas um soldado nesta guerra", ouvimos ainda na sala de aula o professor expressar aos submissos alunos, sob a vigilância do todo-poderoso Saddam, num retrato afixado na parede. 


Na verdade, os retratos, imagens, pinturas do ditador são uma constante. A omnipresença de Saddam estende-se da escola para a estrada, da estrada para o hospital, do hospital para a esquadra da polícia, da esquadra da polícia para os carros alegóricos e procissões que celebram o aniversário. Daquela escola, entre campos e pântanos, até à cidade, Bagdade, a pequena Lamia, na companhia da avó, inicia uma verdadeira odisseia em busca dos ingredientes necessários para o bolo do presidente: farinha, para a vida; ovos, para a fertilidade; açúcar, para adoçar a vida; e fermento, para o bolo ficar fofinho, diz a avó à neta. Rapidamente, avó e neta perder-se-ão uma da outra nesta odisseia de Lamia, à qual se juntará o colega de turma Saeed, ele que ficou incumbido de levar fruta fresca para a celebração do aniversário na sala de aula. A solo e/ou em dupla, a cruzada moral, de dever ser, feita de tamanha candura, lembra muito 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo' (1987), de Abbas Kiarostami. A escola, através da figura severa e referencial do professor, é o instrumento mais poderoso dos regimes autoritários para incutirem os valores de obediência e compromisso nas crianças; e quer no filme de Kiarostami, quer em 'O Bolo do Presidente', as crianças não sucumbem perante as dificuldades no trilho, incluindo a indiferença, falta de solidariedade ou amoralidade dos adultos, e mantêm-se firmes e fieis no propósito: seja para levar o caderno do amigo com os trabalhos de casa feitos para mostrar ao professor na sala de aula; seja para levar o bolo do presidente para entregar ao professor na sala de aula.


Lembrei-me também de 'Táxi' (2015), de Jafar Panahi,  outro dos enormes cineastas iranianos, como Kiarostami, quando avó e neta apanham boleia no carro do carteiro, que entrega e distribui alegrias e tristezas, conforme a ocasião. Naquele momento fazia de carro do noivo num casamento, noivo esse que segue no banco ao lado do carteiro-motorista, de olhos vendados com ligaduras de ferimentos, e que ironiza com o facto de ter perdido a visão num bombardeamento da força aérea americana - presumivelmente, Lamia poderá também ter ficado órfã pelo mesmo motivo, é uma possibilidade que Hadi deixa solta para refletirmos -, pois assim já não está preocupado em saber se a noiva é feia ou bonita. Tal como no 'Táxi' de Panahi, as histórias de vida fervilham dentro do carro, carro este, do carteiro iraquiano, que mais à frente fará de carrinha funerária, transportando a urna no tejadilho, agora em sentido inverso, de Bagdade para os campos e pântanos.


É num caldo feito de sanções económicas, que levam à inflação, à escassez, à miséria, à falência moral, por meio de propaganda, com falta de pão, mas com circo, no qual professores, médicos, polícias, e tantos mais, seguem em piloto automático a cartilha doutrinária, como soldados, apenas. Quanto aos pequenos, Lamia e Saeed, resta-lhes jogar ao sério, mesmo quando as lágrimas se apoderam dos olhos.


The president's cake, de Hasan Hadi (2025)

Visionado no Cinema Ideal


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'O Bolo do Presidente', de Hasan Hadi (2025)

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