DA VAGA DE SALA
'O Último Mergulho', de João César Monteiro: quando a noite traz a luz
A noite. A noite de Lisboa. A noite do Cais do Sodré. É bem antiga a história que liga marinheiros ao Cais do Sodré: enfastiados de mar, ali mergulhavam em busca de terra, copos e mulheres, numa folia desbragada. Quando aquele travelling lateral noturno a partir do carro vai deixando para trás os luminosos letreiros e as portas dos bares ou boîtes do Cais do Sodré - estávamos em 1992, em 'O Último Mergulho', de João César Monteiro (em retrospetiva no Cinema Nimas) - por entre notívagos e agentes da PSP, até ao Viking Bar, curiosamente o único espaço atualmente ainda em funcionamento naquela sequência - obviamente após várias metamorfoses -, é como se estivéssemos a viajar no tempo, em camadas. Uma viagem feita de vaivém, partindo daquele travelling, daquele Cais do Sodré dos anos 90 com néones que contracenam com o escuro e o sombrio, até à artificialidade do agora, daquele pedaço de chão que virou pink street no roteiro turístico de Lisboa; vagueando também pela minha versão (vivida) da primeira década do século XXI, numa simbiose entre um velho e um novo Cais do Sodré, onde já se ouvia Arcade Fire nos épicos e saudosos afters do Copenhagen Bar, mas onde se continuava a dançar à volta de um varão e onde se era servido ao balcão por mulheres mais velhas com aventais; e recuando também para antes dos anos 90, por histórias ouvidas e lidas sobre marujos no Cais [do Sodré]. Quiçá por essa la movida histórica dos homens do mar no Cais do Sodré, João César Monteiro recruta um marinheiro na reforma para devolver à vida um jovem com ideias de suicídio numa noite à beira-Tejo, transformando o encontro numa passagem de testemunho e, consequentemente, numa troca de papéis. Atravessando o escuro da noite, chega a luz; a luz gera a vida e a morte; a vida e a morte desaguam no paraíso; o paraíso é feito de campos de girassóis, para os vivos, e de céus de flamingos, para os mortos.
(Re)descobrir a vida pelas virtudes da noite. Eloi (Canto e Castro) é o tal marinheiro reformado que acaba com a agonia do jovem Samuel (Dinis Gomes), convencendo-o a adiar (ou trocar) o último mergulho naquele Tejo escuro por uns copos e coisas outras que a noite de Lisboa trará no bico. Na verdade, o velho sagaz Eloi tem mais cara de quem tem coragem para um derradeiro mergulho do que o o apardalado Samuel. E assim será, mas até que seja há que operacionalizar a transmutação: Samuel ganhará a vida; Eloi ficará com a morte. Putas e vinho verde, até lá. Mas, pelo meio, talvez movido por um súbito pesar de consciência, João César Monteiro faz uma pausa na folia da noite dos dois bravos para aconchegar os estômagos com uma sopa quente em casa de Eloi. Certamente haveria mais do que sítios na rua para comer um caldo, verde até por sinal, não estivéssemos em altura de arraiais do padroeiro Santo António, porém, a ida a casa confronta-nos com a amargura da vida, o outro lado, ecoada em gritos, urros, gemidos, insultos e palavrões pela mulher de Eloi, doente e acamada, que, numa toada constante, dá som ao longo plano fixo em que os dois novos amigos, à mesa, comem a sopa, como os padres, penitenciando-se ambos em silêncio.
Longas noites valem por anos. Do grotesco da boîte ou cabaret, ao som e dança - e que danças - de "dizem que cachaça é água" ou de "el ritmo de la noche", saltamos para o popularucho, apadrinhados pelas figuras do Santo António nos arraiais lisboetas, onde até João César Monteiro entra na roda da dança e depois na fila da casa de banho, empunhando o papel higiénico necessário para limpar o que se suja, até desembocarmos na decadência da liberdade na pensão 25 de Abril, na Rua de São Paulo, tão perto do Cais do Sodré. Eloi e Samuel, na companhia de três mulheres da vida e da noite - entre elas, a tão nova Rita Blanco -, as três que se sentam num sofá da micro-sala-de-receção, espraiando, todas elas, as desnudadas, belas e mais do que fatigadas pernas após uma noite sem fim.
Ancorado na mudez de Esperança (Fabienne Babe), uma das três mulheres, o filme começa a brotar coisas do cinema mudo, inclusive cortando o som. Somos convocados para imaginar (mais), para construir, para afinar sentidos: primeiro, naquele longo regard caméra, a par, de Eloi e Esperança, ainda no quarto da pensão da liberdade, também para o amor; depois, naquela segunda longa performance artística, teatral, com total ausência de som, que sucede e repete a primeira que fora acompanhada pela música de Strauss, suscita-nos um conflituante comparativo de emoções, gerando outras mais em cima das anteriores, como ansiedade, desorientação ou vazio - o cinema a reclamar o seu lugar, acima de tudo.
Um cinema que não precisa de pedir licença para um último e fatal mergulho, basta descalçar os sapatos, e assim transitar, ou melhor, transmutar-se, da vida terrena para a espiritualidade, bastando-lhe um campo repleto de girassóis, na sua vivacidade colorida - bem alimentados certamente pela mesma água do rio -, e assim fazer germinar um paraíso para os corpos vivos (de Esperança e Eloi), que se repercute depois num céu cheio de flamingos onde certamente haverá lugar para as almas que largaram os corpos mortos seguirem.
'O Último Mergulho', de João César Monteiro (1992)
Visionado no Cinema Nimas
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'O Último Mergulho', de João César Monteiro (1992)



