DA VAGA DA SEMANA

piresstephane • 29 de setembro de 2026

'Natal Amargo', de Pedro Almodóvar: renascer por meio de cinzas


'Má Educação'(2004) e 'Dor e Glória' (2019): entre a vasta filmografia de Pedro Almodóvar foi para estas duas longas-metragens que me levou 'Natal Amargo' (2026). Digamos que estes filmes juntos esboçam de certo modo uma trilogia existencialista de contornos autobiográficos do próprio, entre o ser e o cineasta ou a diluição dos dois num só. Já lá vamos. Por outro lado, esta nova obra esperneia face à letargia do insípido 'O Quarto ao Lado' (2024), onde Almodóvar nos deixara até então, um filme cuja criatividade tem apenas um rasgo, corporizado naquele aperaltar de Tilda Swinton para a morte (digna), unindo estética e moral. Naquele momento parecia que o próprio cineasta - não o ser, ainda - morrera ali, num último gesto artístico a tingir um filme vazio. Não foi assim, sabemos agora com 'Natal Amargo'. Almodóvar parece ter saltado por cima e para trás de 'O Quarto ao Lado' para pegar no final de 'Dor e Glória' e continuar a criar histórias, a partir de um (novo) alter-ego seu, um tanto ou quanto mais aliviado das dores de envelhecimento, revitalizado para deambular de novo entre passado e presente, entre realidade e ficção, quase como resgatando e reescrevendo um dos muitos argumentos que Banderas (o alter-ego anterior, em 'Dor e Glória') tinha guardados no ambiente de trabalho do laptop. Agora, ao converter excertos do texto em imagens em movimento, Almodóvar faz mais do que brotar um filme dentro do filme, na verdade faz viver em alternância e em harmonia desarmónica dois filmes, que, juntos, formam um filme. E é também aqui, formal e estruturalmente, que 'Natal Amargo' comunica com 'Má Educação' - além da textura autobiográfica e de mais um alter-ego do realizador espanhol.


A quase sequela de 'Dor e Glória', assente agora no alter-ego Raúl (Leonardo Sbaraglia), realizador/argumentista, só nos é apresentada já depois de irromper pelo filme adentro a história de Elsa (Bárbara Lennieová), escrita por Raúl; ela como alter-ego dele, pelo menos até certa altura do filme, filme que vai emanando do somatório dos dois filmes. Em abono da verdade, até ao último terço do(s) filme(s), a história escrita por Raúl é mais entretida do que a história vivida por Raúl, fechado em casa a escrever, apenas na companhia do namorado Santi - também ele refletido na história escrita, no namorado de Elsa - e já sem a presença da sua inseparável agente / produtora de uma vida, Mónica (Aitana Sanchez-Gijon). Talvez pelo enfado que o próprio vive, sentado no conforto daquela sumptuosidade em que as cores, apesar de fortes e vivas, parecem por si só já não devolverem energia, Raúl sente a necessidade de repescar para o seu guião peripécias da nova vida de Mónica. Voltamos a 'Má Educação' e são óbvias as diferenças naquilo que é a diluição orgânica dos dois filmes, ou das duas histórias, em cada um dos filmes (em 'Má Educação' e em 'Natal Amargo'). É sob o efeito da surpresa e do arrojo potenciado por Ignacio (interpretado à vez por Gael Garcia Bernal e Francisco Boira), homem-mulher que viveu duas vezes, na obra mais antiga, que essa diluição se manifesta; todas as voltas e reviravoltas que colam e descolam os dois filmes, melhor, a realidade e a ficção no próprio filme, são de um outro tempo criativo de Almodóvar, sabemos. Com essa intenção de pegar na vida de Mónica, de repente estamos a tentar atar pontas, com nós mais simples, mais cansados, mais previsíveis, mas que ainda valem a pena.


Felizmente Raúl e Almodóvar percebem a certa altura que era preciso sacudir aquela choradeira de Elsa com a amiga ao som de La Llorona, numa versão de Chavela Vargas, e passam a incrementar vida(s). E mesmo que pisando um chão de cinzas, com Elsa a viver o luto almodovariano da mãe, Mónica e a namorada a viverem o luto do filho desta, tal como a consequente personagem da história escrita, que se junta a Elsa em Lanzarote e questiona se naquela paisagem vulcânica estão perante túmulos. Não, são zocos, responde Elsa. Tal como aqueles vinhedos subsistem naquela terra negra, ladeados por muros de pedra para proteção dos fortes ventos, também o cinema de Almodóvar resiste e renasce por meio de cinzas e numa espécie redoma, que o protege e que o inspira.


Amarga Navidad (2026), de Pedro Almodóvar

Visionado no Cinema Ideal



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'Natal Amargo' (2026), de Pedro Almodóvar

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