DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Doclisboa

piresstephane • 22 de outubro de 2026

Promised Spaces, de Ivan Markovic: casas construídas pelo teto


Numa altura em que vamos assistindo aos mais do que justos e necessários protestos pela habitação, inclusive em Portugal, vamos também lendo e ouvindo políticos e figuras com espaço mediático a colocarem a tónica no indispensável aumento da construção, incluindo de habitação pública, como resposta fulcral ao problema da escassez ou da inacessibilidade. Contudo, muitos deles esquecem-se, ou pretendem que a audiência se esqueça, que mais construção, por si só, não é sinónimo de maior oferta para moradores/residentes habituais e para quem mais necessita: enquanto fundos imobiliários e não residentes puderem aplicar a ditadura do capital ou enquanto o atual governo português considerar como renda moderada um valor até 2300€, estamos perante uma falácia. O realizador sérvio Ivan Markovic foi até ao outro lado do mundo, algures no Camboja, onde por lá ficou durante dois anos, para em Promised Spaces (2026) - em estreia no Doclisboa - nos mostrar o negócio da habitação como símbolo (em betão) do neoliberalismo, como sistema selvagem que irrompe pela natureza, alicerçado em duas fontes: os trabalhadores que constroem os prédios e os clientes que os compram. "Uma casa não se constrói pelo telhado", pois bem, este dizer popular é virado às avessas e é precisamente a partir do topo dos arranha-céus ali construídos, do último e mais alto andar - a penthouse mais luxuosa -, que se vai terminando gradualmente a construção das habitações, de cima para baixo em sentido literal, do teto para o chão, permitindo, deste modo, que os clientes se vão instalando, em cima, nos apartamentos acabados, enquanto os trabalhadores vão pernoitando, cá em baixo, nos espaços que hão de ser apartamentos - um dois em um tão neoliberal.


Sob um intenso calor húmido, tropical, um grupo de trabalhadores, constituído por homens da construção dos arranha-céus que rasgam e se infiltram pela vegetação que parece circundar uma pequena aldeia piscatória e por mulheres que tratam da manutenção/limpeza do condomínio de luxo, improvisam um churrasco para todos, nos escombros, no chão da terra em que se vão erguendo os grandes prédios que irão comunicar com outros já construídos, já habitados, no horizonte, de onde a iluminação reluzente contrasta com a escuridão que a pequena fogueira do barbecue não consegue alumiar. Inundados em suor que vemos a alojar-se nos corpos, lamuriam-se de um calor que tanto impede dormir como não dormir, no fundo, não há escapatória. O ar condicionado só existe nos apartamentos do condomínio luxuoso que promete oferecer o melhor de dois mundos: o conforto da vida urbana com o bem-estar da natureza. A conversa daquela classe operária vai desaguar na piscina construída na penthouse, no último piso, mas o primeiro a ser concluído. O homem-trabalhador fala da especificidade arquitetónica daquela piscina, no topo, tão perto do céu, cujos limites do espaço ultrapassam a restante estrutura do prédio, de forma a que quem nela nade possa olhar para baixo e ver as árvores, a vegetação, a paisagem natural - chapeau! Mais à frente vemos o homem a dar umas braçadas noturnas na sumptuosa piscina, aproveitando os últimos cartuchos antes da penthouse ser habitada.


Apesar de chegarmos a ver um dormitório atolado de pessoas em beliches,  Promised Spaces não se dedica a explorar o miserabilismo daquelas pessoas que ali vivem e trabalham. Diria que essencialmente se foca em humanizar essas pessoas, colhendo e transmitindo estados de alma, características e sentimentos em vários dos não-atores que vão sendo protagonistas. Fica na retina aquele diálogo da senhora que gere um restaurante dentro da (sua) própria casa e que num monólogo no quarto com o marido adoentado segura-lhe a mão, queixa-se dos defeitos dele e de como isso tem sobrado para ela, mas acaba por relativizar isso tudo porque ele é bom no amor! Do outro lado da barricada estão os clientes, aqueles que compram os prometidos espaços, fação corporizada no filme por apenas uma única pessoa/protagonista, nova e primeira proprietária de um apartamento no prédio em construção, e que Markovic decide desenhar mais como vítima de engodo do que beneficiária do conforto. Ou seja, trabalhadores e clientes ambos arrastados pelo sistema neoliberal ali simbolizado por blocos imponentes de betão que rasgam e se infiltram naquela paisagem de um verde natural: os primeiros forçados pela necessidade, os segundos ludibriados pela gula. Arrastada para o escuro, testemunhando ao longe a iluminação dos prédios já habitados, palmilhando terra enlameada, para poder saciar a fome, a mulher-proprietária-cliente prova o engodo do viver em bairros/condomínios fechados algures em nenhures, onde não se vive, só se dorme - e aqui dei um salto, de certa forma, até aos bairros periféricos de Madrid sobre os quais Pablo Llorca reflete em  Piscina por la tarde (2026), também exibido no Doclisboa. E é cá em baixo, na terra, sentindo o mesmo calor, que as duas fações - os trabalhadores e a cliente - se tocam, e se assemelham, sempre num tom sereno de linearidade que comanda o filme, recusando transformações e uma eventual espectacularização das mesmas.


Com engenho, as imagens vão evocando dicotomia, contraste e absurdo num só plano, em vários planos: o escuro natural e a luminosidade artificial; a vegetação e o betão a tocarem-se; as vacas a pastarem e os arranha-céus a surgirem como muralha. Contudo, diria que o filme carece de alguma solidez, algo que poderia ser oferecido pelas vidas locais dentro da aldeia à beira-rio, para ir mais fundo, um pouco à semelhança do que fez Leonor Noivo em Bulakna (2025), numa pequena terra piscatória nas Filipinas, permitindo-nos testemunhar modus vivendi e  também diferentes aspirações geracionais.


Promised Spaces (2026), de Ivan Markovic

Visionado no Doclisboa, na Culturgest



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Promised Spaces (2026), de Ivan Markovic

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