DA VAGA DE SALA ESPECIAL - Festa do Cinema Francês

piresstephane • 5 de outubro de 2026

'Histórias Paralelas', de Asghar Farhadi: conto amoral


Já aqui escrevi anteriormente acerca da minha veneração por cineastas de forte cunho identitário, que de filme para filme reforçam um traço autoral distintivo, uma marca-d'-água bem vincada que nos faz associar, por vezes inconscientemente, as diferentes obras, ou até mesmo confundi-las. Yasujiro Ozu e Aki Kaurismäki são talvez aqueles que mais (bem) me impressionam neste desiderato - os escritos sobre 'Crepúsculo em Tóquio'  (Ozu) e 'Folhas Caídas'  (Kaurismäki) tocam nisso -, mas Asghar Farhadi anda lá perto. Lugares comuns, sensação de déjà vu, protagonistas, encadeamento de acontecimentos, maneirismos, atmosferas que se assemelham entre filmes. No caso de Farhadi há sempre um acontecimento de contornos trágico-dramáticos a dar-se sensivelmente no primeiro terço de filme, a partir do qual emergem os jogos de linguagem: as descrições do acontecimento, as tentativas de decifrar o enigma, a colocação de hipóteses, as suposições, os testemunhos. Assim vimos em 'À Procura de Elly' (2009), em 'Uma Separação' (2011), em 'O Vendedor' (2016), filmes maiores do cineasta iraniano, mas também nos menos conseguidos 'Um Herói' (2021), 'Todos Sabem' (2018) ou 'O Passado' (2013), os dois últimos realizados fora do Irão, respetivamente em Espanha e França. Agora de novo em França, com 'Histórias Paralelas' (2026) - em estreia na passada sexta-feira na  Festa do Cinema Francês -, não há lugar ao habitual acontecimento trágico, seja na forma de morte, de desaparecimento, de agressão ou de acidente, para espoletar os também habituais dilemas morais, Farhadi decide criar disrupção no seu cunho identitário e sob o jogo da realidade e da imaginação debruça-se na amoralidade que captura a sociedade ociedental.


É inegável que a força do cinema de Farhadi assenta nos já mencionados dilemas morais que os protagonistas têm de viver e aos quais dar respostas, movidos quer pelo conflito interior individual quer pelo confronto externo com os outros, onde a moral tem de dialogar por entre crenças religiosas, fundamentalismos, obscurantismos, liberalismo e conservadorismo, o homem e a mulher - tendo como palco a sociedade iraniana, com as suas vicissitudes e assimetrias. A mesma fórmula não poderia resultar tão bem - nem perto disso - em França ou em Espanha, como ficou à vista em 'O Passado' e em 'Todos Sabem', onde falta tensão e densidade em torno dos jogos de linguagem e nos dilemas e confrontos morais, pela simples razão de que estamos perante um outro sistema de valores, obviamente com implicações na moral e na sua interpretação/aplicação. Desta feita, Farhadi abdica do seu teste moral, talvez porque ela já não seja tangível nesta sociedade do Ocidente, o que consequentemente anula o conceito de imoral, restando constatar e espraiar-se na amoralidade.


Ainda voltando ao vincado cunho identitário do cinema de Farhadi, voltamos a observar, agora em 'Histórias Paralelas', uma cena inicial em que os créditos rolam em cima da mesma, funcionando como alavanca para o filme. Lembremo-nos do escuro do interior de uma caixa de correio onde vemos o depositar de cartas no início de 'À Procura de Elly', como premissa de segredos que iremos desvendar; lembremo-nos do scanner de uma impressora, a digitalizar sucessivos documentos de identificação no início de 'Uma Separação', como premissa para a obtenção do retrato mais fidedigno dos diferentes protagonistas: o padrão moral, mental e comportamental; lembremo-nos do foco das luzes por entre as diferentes camas no cenário da peça de teatro ('Morte de um Caixeiro-Viajante', de Arthur Miller) no início de 'O Vendedor', como premissa para o afastamento até à presumível separação do casal no fim. Em 'Histórias Paralelas', assistimos ao roubo de uma carteira no metro de Paris e à sua consequente recuperação num ato solidário e até heroico do jovem Adam (Adam Bessa) que devolve o pertence à mulher grávida (India Hair). Uns instantes depois do sucedido, a mulher reencontra o rapaz ainda no metro a ser interpelado pelos polícias, ela diz-lhes que ele recuperou e devolveu-lhe a carteira intacta, perante a desconfiança, frieza e indiferença dos agentes da autoridade, incapazes de saudarem o ato moral do jovem. Sabemos depois que ela é sobrinha da escritora Sylvie (Isabelle Huppert), para quem contratou - sem lhe pagar - o rapaz benfeitor para acelerar a mudança - ou despejo - da casa cuja metade do valor lhe pertence. Um ato moral desemboca em amoralidade. Amoralidade essa que atravessa todo o filme arrastando todos os protagonistas com ela. A sobrinha quer despejar a tia para receber metade do valor da venda da casa; a tia, romancista, espia vizinhos para imaginar uma realidade para o seu novo livro, e que bem Huppert expressa a sua amoralidade, convicta de que o voyeurismo que exerce a partir do telescópio da sua janela pode ser uma boa muleta para a imaginação; o rapaz, agora como ajudante de Huppert, açambarca o rejeitado manuscrito da patroa - numa brevíssima aparição de Catherine Deneuve - e veste o fato de autor plagiador, procurando unir imaginação e realidade; Nita (Virginie Efira) - começa por ser Anna, uma femme fatale na história que a personagem de Huppert escreve e que Farhadi coloca em imagens em movimento, mas que na realidade é uma femme naturelle e é nessa pele que a fabulosa Efira exibe a sua melhor versão - relativiza e desvaloriza a devassa da vida vida privada de que está a ser alvo, sendo vigiada diariamente no seu local de trabalho pelo autor de um livro; o namorado (Vincent Cassel) de Nita, e seu patrão no estúdio de som onde trabalham, não quer confrontar o irmão e seu empregado acerca do assédio sexual deste a Nita, sem antes findar os projetos laborais que estão em mãos e até encontrar um substituto; o irmão-cunhado empolga-se com a ficção do manuscrito, tenta abusar sexualmente de Nita, mas quer manter oculto o ato com pedidos de desculpa, de modo a segurar o emprego. Diria que toda esta transversal amoralidade só encontra linha vermelha (moral) para Farhadi em Nita, no momento em que ela diz não a continuar a hipocrisia de ter de lidar com o agressor sexual, como se nada tivesse acontecido.


É amoralidade em efeito de arrastão, praticamente sem contraditório e sem fricção do início ao fim, numa realidade que a câmara de Farhadi tanto gosta de captar através de diferentes vidros - a lembrar aqui 'A Separação' - como barreiras à transparência, e que repesca na imaginação o espírito de Krzysztof Kieślowski.


Seja numa versão real, seja em versão imaginada, pedimos a Farhadi que volte ao Irão: já temos saudades!


Histoires Parallèles (2026), de Asghar Farhadi

Visionado na Festa do Cinema Francês, Cinema São Jorge



Adquira o Livro NA VAGA DE ROHMER - Escritos sobre (65) filmes | O ANO ZERO

À venda em Portugal

À venda no Brasil

'Histórias Paralelas' (2026), de Asghar Farhadi

Compartilhar

'Natal Amargo'
Por Stéphane Pires • 29 de setembro de 2026
'Natal Amargo', de Pedro Almodóvar: renascer por meio de cinzas
'A Amiga Silenciosa'
Por Stéphane Pires • 22 de setembro de 2026
'A Amiga Silenciosa', de Ildikó Enyedi: ramificações das memórias de uma árvore
'Sem Eira Nem Beira'
Por Stéphane Pires • 15 de setembro de 2026
'Sem Eira Nem Beira', de Agnès Varda: detonadora de atos e emoções
Mais Posts