DA VAGA DA SEMANA
L'Aventura, de Sophie Letourneur: nada (ou tudo) se passa, é a vida!
Verdadeiramente par hasard encontrei um amigo que não via há muitos anos no momento em que entrávamos na sala para a sessão de L'Aventura (2025), de Sophie Letourneur, no Cinema Nimas. A brincar - julgo - dizia ele que estava ali por engano, pois pensara que era para ver o L'Avventura (1960) de Antonioni. De facto, é preciso estar atento para descortinar um 'v' a menos no nome do filme francês, relativamente à obra italiana. Um engodo que Sophie Letourneur lança ao espectador? Talvez, já assim fizera no seu filme anterior Voyages en Italie (2023), em que acrescenta um 's' que transforma a viagem de Rossellini [Viaggio in Italia, 1954] em viagens, aliás, estas duas longas da cineasta francesa em solo transalpino fazem parte de uma projetada trilogia que culminará - se conseguir ter financiamento para tal, vai avisando ela - num já apelidado Divorce à l'italienne, e aqui o engodo parece prosseguir, pois tanto poderemos associá-lo ao Divorcio a la italiana (1961), de Pietro Germi, ou então ao Matrimonio all'Italiana (1964), de Vittorio de Sicca. Esclareçamos, um engodo feito de leveza e galhofa, de um certo tom satírico que Letourneur gosta de trazer para o seu cinema ao brincar com o próprio cinema; se recuarmos até Les Coquillettes (2012), em que Letourneur, realizadora e protagonista, faz um filme com duas amigas-atrizes no decorrer do Festival de Locarno, há um momento em que as três estão na fila para uma projeção e, quando alguém lhes pergunta o que vão ver, elas respondem que é um filme de Jafar Panahi, Sous le soleil de Satan (1987), quando efetivamente a obra é de Maurice Pialat, como sabemos. Letourneur retorna para a frente da câmara nesta trilogia - a última vez fora em Les Coquillettes - para assim voltar a fazer assumidamente dela própria, agora em L'Aventura. Tal como na (sua) vida, é mãe de dois filhos; filhos que já foram como aquela adolescente e aquele pequenito que vemos no filme e que em 2016 fizeram aquela viagem à Sardenha, uma viagem que serviria como maqueta documental, incluindo os registos áudios das conversas, para a ficção, ou autoficção, que depois constrói. A amiga que na vida fez aquela viagem com Letourneur e os dois filhos é substituída no filme pelo ator/protagonista que faz de pai do filho mais novo, o mesmo que contracena com ela em Voyages en Italie. O modo como a ficção de Letourneur se serve do documental, numa espécie de terra de ninguém, absorve e reproduz de uma forma tão orgânica, recheada de naturalidade, a vida e o seu curso, incluindo o cocó que a criança mais nova vai expelindo, pisando e espalhando enquanto esboçam um piquenique ao pôr do sol, na falésia. E isto é absolutamente fascinante!
É mesmo numa das cenas finais, nesse piquenique em que o cheiro da merda se mistura com o queijo e a melancia, que
Jean-Phi (Philippe Katerine) diz à mulher
Sophie (a própria Sophie Letourneur), enquanto tenta afastar a comida das fezes, que a ideia de fazer um filme a partir daquelas férias - tal como o filme, estavam mesmo a chegar ao fim - não valeria a pena, pois nada se passa, afirmação prontamente contraditada por Sophie, para quem efetivamente tudo se passa, é a vida, diz ela; no seu esplendor, acrescento. Com aquela luz quente a dar-lhe no rosto, do sol que vai baixo, a mulher que é personagem, atriz e realizadora, fundida numa só, proclama convictamente a sua ideia de cinema, ideia essa que fomos vendo a dar-se e a materializar-se ao longo de todo o filme, numa representação mais do que palpável do quotidiano, numas férias de Verão de um casal com duas crianças, detendo-se nos não-acontecimentos que compõem aquelas vidas, tão semelhantes a tantas outras: as birras e mais birras do mais pequeno, as manias da irmã mais velha, a escolha do lugar para se comer, a definição do programa a fazer naquele dia, o pedir ou não pedir do gelado ou da guloseima, as idas à casa de banho, o tédio dos corpos inertes no calor do quarto, os quiproquós dos alojamentos locais. Simplesmente detendo-se, repetindo, indo e voltando, como uma roda giratória, sob a alavanca da montagem - a cargo também da própria
Letourneur
e que me fez recordar, ao de leve, o
modus operandi da cineasta argentina
Lucía Seles, ainda que com muito menos turbulência, no trabalhar de um mosaico de momentos que se constrói e destrói sucessivamente através da montagem, desmontando a linha cronológica, como que replicando a memória humana com os seus fragmentos que se unem, nem sempre ordenadamente - que faz da quebra da linearidade narrativa, cronológica acima de tudo, o rolamento perfeito para a roda girar sempre no mesmo espaço e tempo, na Sardenha, numas férias de Verão.
E para onde quererá ir ou girar Letourneur, o seu cinema, L'Aventura? Para onde quisermos, tão simples quanto isso. Não, Jean-Phi não vai desparecer como a personagem do filme de Antonioni, apesar das suas fugas, curtas e esporádicas, tão bem e tão pausadamente condensadas naquele longo travelling lateral, por uma avenida de uma terra turisticamente veraneante, que o acompanha no seu andar sem destino enquanto a vida se dá e se deixa para trás como quem puxa uma longa cortina. Sim, podemos pensar na frigidez que atravessa o casal quando os filhos parecem ocupar todo o tempo e também o espaço. Sim, podemos pensar em como os pais vivem muitas vezes alienados na coabitação com os filhos. Sim, podemos pensar em como o dia-a-dia gerido em grupo, em família, pode ser caótico. Sim, podemos pensar nas microrrelações que se estabelecem a quatro, a três ou a dois, e nas suas manifestações consoante o contexto. Sim, podemos pensar que a vacuidade é um elemento central na vida, ainda que não o reconheçamos muitas vezes, e que as férias fazem desabrochar mais assumidamente. Sim, podemos pensar em nós, nas nossas férias, nas nossas vidas. "Ama a vida mais do que a sua lógica, assim compreenderás o seu sentido", dá-nos Letourneur a ler, a partir de um baci - no papel que enrola o bombom italiano.
L'Aventura (2025), de Sophie Letourneur
Visionado no Cinema Nimas
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L'Aventura (2025), de Sophie Letourneur



